terça-feira, 1 de junho de 2010

Origens

Os primeiros raios de sol tocavam a areia branca da praia. O mar estava calmo, as ondas batiam nas pedras de maneira sonolenta, trazendo uma sensação de aconchego aos primeiros turistas da manhã. Estirado na margem, um corpo.
Era de um rapaz jovem, moreno, magro. Completamente nu. Não demorou para a cena atrair curiosos. Logo, uma pequena multidão se formava em torno do garoto. Começaram a confabular:
- Está morto?
- Morto, que nada! É um sem vergonha. Deve ter bebido até cair!
- Mas está pelado!
- Algum amigo safado lhe roubou as calças. Pouca vergonha!
- Será que foi assalto? Com a violência do jeito que está...
- Vejam, parece que ele está acordando!
O rapaz piscou lentamente. Aparentemente aturdido. O sol batia forte em seu rosto, só via vultos.
- Tudo bem aí?
- Lurdinha, não olhe!
- Soraia, pegue meu calção na mochila logo ali. Acho que serve nele.
- Qual seu nome, garoto?
O rapaz continuou parado, sem reação. As vozes chegavam em seus ouvidos misturadas ao barulho do mar. Quando conseguiu ordenar os pensamentos, quis responder à pergunta, mas se deu conta de que não sabia onde estava.
- Onde estou? Que lugar é esse?
As pessoas trocaram olhares assustados. Alguns cochicharam, outros esticaram o pescoço para verem melhor. O rapaz não reconhecia ninguém, nem nada por ali.
O burburinho recomeçou.
- Deve estar com amnésia, coitado...
- Amnésia alcóolica! Foi a mesma coisa com aquele traste do Júlio!
- Mamãe! Se controle!
- O que houve com você, rapaz? Onde estão suas roupas?
Ele continuou piscando para as pessoas ali. Fazia força para se lembrar de algum vestígio da noite passada, mas não sabia nem em que dia estavam. Alguns garotos filmavam tudo com celulares, rindo debochadamente. Tentou se lembrar de sua casa, ou de sua família. Talvez estivessem procurando por ele agora. Mas aí se deu conta de que não sabia nem quem era.
- Quem sou eu?
- Ih... pirou.
- Alguém chame um médico!
- Eu disse para não virmos aqui hoje... olha que situação.
- Você é um moleque irresponsável, um beberrão!
- MAMÃE!
Começou a se desesperar. Não se lembrava de nada. Nem seu nome, nem de onde viera. De repente se deu conta da infinidade de possibilidades. Num universo tão vasto, poderia ser qualquer um. A pessoa se perde de si própria sem um ponto de referência, por menor que seja. Não havia ali nada que o ligasse à alguém, nem mesmo ao seu próprio eu. Poderia ser um ateu roqueiro, viciado em café e em história da arte. Ou então um médico ortodoxo, muito rígido e fanático pelo América. E se fosse um ladrão internacionalmente conhecido? Ou um herói contemporâneo? E se fosse um viajante do tempo? Um político corrupto? Não possuía nem roupas que pudessem lhe dar uma pista. Quando Soraia voltou com um calção que era duas vezes o seu número, não pensou duas vezes. Saiu correndo pela praia, totalmente nu e insano. Gritava, um vexame. A multidão ficou perplexa por alguns segundos, observando o jovem se afastar e sumir no mar.

- Cachaceiro!

Dispersaram.