Era dia de clássico na Favela dos Matutos. O time do Ronicleiton chegara na final do Matutão com duas vitórias fáceis sobre o time do Zé Banguela. Eram favoritos absolutos, uma vez que, o time do Janjão tinha empatado o primeiro jogo e ganhado nos pênaltis do time do Tonho Barata.
Pouco a pouco era perceptível a movimentação nos arredores do campinho, que tinha mais terra do que grama. Os amigos do Ronicleiton já começavam a se aglomerar fazendo grandes arruaças e provocando a pequena torcida rival - o Janjão não tinha muitos amigos na favela, não era de bom tom ser amigo de um fugitivo naquela época.
Os dois times entraram em campo sob aplausos e vaias. Logo, Seu Moacir deu início à partida.
Nos primeiros dez minutos, o jogo estava muito confuso e embolado, a equipe de Janjão jogava sem camisa, e a de Ronicleiton, com camisa (embora muitos jogadores não as tivessem de fato). Vandame marcou o primeiro gol, aos vinte e dois minutos, em uma cobrança de falta. E assim o time de Ronicleiton foi para o intervalo com um gol de vantagem.
No segundo tempo, Jaburu chutou de longe, com força, e a bola acabou furando de novo. Quando conseguiram remendá-la o jogo continuou. o time do Ronicleiton estava próximo de se tornar campeão pela terceira vez consecutiva, a torcida já assobiava e gritava ofensas aos jogadores rivais.
Então, numa forte dividida entre Janjão e Beiçola, o capitão do time se deu mal e teve que sair de campo, machucado; não antes de ameaçar pegar a peixeira para intimidar o franzino Beiçola. Confusão no campo. Gritaria, palavrões, ameaças de confronto físico - tudo aquilo que um clássico de verdade prezava. Foi preciso uns dez minutos pro tumulto se dispersar. O juiz gritou que ia chamar a polícia, afugentando boa parte dos brigões. O jogo recomeçou.
No lugar de Janjão entrou o jogador mais jovem do time, o único que não fugira ante a ameaça do juiz: Oscarito.
Oscarito não era muito bom de bola, mas aquele dia mudaria sua vida para sempre.
Era pequeno e raquítico, com olhos grandes e cabelos enrolados. Abaixo do peso e da altura para sua idade, julgavam-no mais novo do que era. As canelas finas, os dentes tortos, os ombros caídos. Um típico garoto Matuto.
No seu primeiro lance Oscarito driblou três adversários e estufou as grades do campinho. Empate aos quinze minutos do segundo tempo. O lance parecia ter animado e inspirado seus companheiros, que começaram a jogar com mais vontade. Faltando dois minutos para o fim do jogo, Oscarito deu dois chapéus dentro da área e chutou firme - outro golaço! Algum tempo depois, os mais velhos comparariam este lance ao famoso gol de Pelé em 58. Fim de jogo, vitória de virada do time sem camisa, e um novo pequeno herói consagrado: Oscarito.
Enorme euforia, até quem torcia contra venerou o garoto magro, que parecia não acreditar no próprio feito. O pai, seu Firmino, não continha o choro. A criançada gritava o nome de Oscarito, e os cachorros de rua faziam coro latindo e correndo.
Nos dias que se passaram, Oscarito se transformou na sensação da favela. Todos o parabenizavam pelo talento, pediam que ele narrasse os próprios lances geniais - o que o garoto fazia com muita humildade e certa timidez - abraçavam-no, até beijavam-no. Os traficantes mandavam pacotes de presentes para sua casinha (todos devidamente confiscados por seu Firmino). Pagavam-lhe salgados e refrigerantes, davam-lhe balinhas e picolés. Oscarito era o novo, e talvez único, ídolo genuíno dali, da favela dos Matutos.
Até que duas semanas depois, enquanto jogava bola naquele mesmo campo que o consagrara, o destino veio bater à sua porta.
- Oscarito! Venha cá, menino!
Seu Firmino chamava o filho da beira do campo, estava acompanhado de um homem gorducho e risonho.
- Pai.. o que foi?
- Oscarito.. este é o senhor Dirceu Ventura.
- Olá, Oscarito. - disse o gorducho, de modo simpático - Hoje é seu dia de sorte, garoto!
Seu Firmino abriu um largo sorriso, Oscarito apenas piscou os olhos, curioso.
...
(Continua...)