Os olhos curiosos de criança percorriam todo o jardim de um canto à outro. Quando avistavam alguma coisa diferente, como uma flor exótica ou formigueiros, lá ia a pequena Clarinha com sua lupa explorar. Ali era seu reino encantado, seu território de infindáveis histórias e aventuras. A mãe lia um livro na varanda, ocasionalmente espiando a pequena exploradora em seu hábitat natural.
De vez em quando, a pequenina soltava exclamações audíveis ao descobrir bichos diferentes pela grama. Quando achava que o 'troféu' era digno de admiração, apresentava-o, orgulhosa, à mãe, descrevendo animadamente como realizara a captura. A mãe, absolutamente encantada, ouvia a narração até que a menina se perdia em sua própria excitação e voltava ao seu vasto mundo mágico. Até o sol parecia brilhar mais forte, se aventurando com Clarinha pelo desconhecido.
Pensou ter avistado um pequeno movimento perto das rosas. Correu o mais silenciosamente que pôde e se abaixou perto do balanço da árvore. Um pequeno reflexo dourado distraiu sua atenção; então, mudando de estratégia, rastejou até o ponto amarelo à sua frente para ver o que era. Ajustou bem a lupa para investigar, quando percebeu que se tratava de uma flor exuberantemente amarela. Alguém havia arrancado-lhe algumas pétalas, mas mesmo assim, Clarinha achou-a fantástica. Quando pegou a flor em suas mãozinhas delicadas, um pequeno borrão verde pulou para o chão. Olhando mais de perto, a menina percebeu que era um pequeno sapo.
Durante alguns segundos Clarinha e o sapo se fitaram. Era difícil dizer quem estava mais surpreso com o encontro repentino. Clara nunca havia visto um sapo de perto antes, no entanto, não estava assustada ou receosa. Pelo contrário, admirava-o de tal forma a ponto de achá-lo fascinante. A mãe, estranhando o súbito silêncio no jardim, deixou o livro de lado e foi checar o que prendia a atenção da filha.
- Clarinha.. o que foi meu bem?
- Mamãe.. olha! Olha que lindo!
A mãe olhou para a Rosa em suas mãos e sorriu.
- É uma Margarida, Clarinha.
- Não mamãe.. tô falando do sapinho, olha!
A mãe então percebeu o sapinho que a menina apontava. Sorrindo ainda mais, se agachou junto à filha.
- Você o acha lindo, Clara?
- Ele é gelado, olha! E a pele é tão diferente, parece uma géleia..
- Bom, algumas pessoas não pensam assim meu bem..
- Como? Como não pensam?
- Veja.. algumas pessoas acham o sapo um bichinho bem nojento..
- Mas mãe.. não tá certo isso. Ele é tão.. tão lindo.
A mãe olhou para a pequena Clara e viu que seus olhos brilhavam. Passou a mão em seus cabelos e colocou a margarida atrás da orelha da filha. A menina continuou olhando o sapo com ternura.
- Clarinha.. as pessoas enxergam a beleza das coisas de formas diferentes. De maneiras diferentes. O importante é que não devemos dizer a elas o que é feio ou o que é bonito. Somos diferentes e devemos conviver com essas diferenças. Temos que respeitar o gosto de cada um, sem nunca julgarmos que o nosso gosto é melhor ou pior que o deles. Você me entendeu?
A menina continuou parada olhando para o sapo. Uma pequena ruga se formara em seu semblante. A mãe percebia que sua garotinha estava crescendo. Passou as mãos em suas costas e a abraçou forte, emocionada. Clarinha se levantou, ainda com a margarida atrás da orelha e o sapinho na mão.
- Mas mãe..
- Sim, filha?
- Ele é lindo.
A mãe deu a mão para a pequena Clara e a levou para dentro. Sorrindo consigo mesma, pensou que ainda haveria tempo, muito tempo, até que Clarinha entendesse.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Só se vive uma vez
Seus pais queriam ter uma menina. Iria se chamar Lindaura e ser advogada, ou médica. Seria linda e loira, com olhos claros e porte de modelo. Teria sucesso, iria viajar para a Europa e teria um apartamento no Leblon. Acontece que, ao invés de Lindaura, tiveram o Gustavinho. Moreno, olhos puxados, baixinho como o pai.
Gustavinho iria fazer três anos e queria muito uma bicicleta. Implorava por uma bicicleta, chorava, esperneava. Orgulho dos pais: tão novo e tão certo do que queria, seria sem dúvida um traço da personalidade forte da mãe, diziam todos. Veio o dia do aniversário e nada de bicicleta. Ganhou uma bola de futebol, roupas Fido Dido e uma espada de brinquedo. Nem um monociclo sequer.
Aos dez anos, Gustavinho era um Palmeirense roxo. Já sabia entoar as canções do time, a escalação completa, e sempre procurava conseguir as figurinhas do Palmeiras do álbum do Brasileirão. Seu sonho era ir ao estádio ver um jogo do time de coração, e conhecer de perto seus ídolos. Mas aquele ano o Palmeiras teve uma campanha sofrível, perdeu a maioria dos jogos e não levantou nenhum caneco. Um vexame. Gustavinho, hostilizado pelos amigos que torciam por outros clubes, ficou traumatizado e parou de acompanhar os jogos do Palmeiras; futebol, dizia, nunca mais!
Gustavo estava na oitava série quando se apaixonou pela primeira vez. Era uma paixão aterradora, que o distraía de tudo mais que acontecia ao seu redor. Quando via Cecília seu coração disparava, suas mãos suavam. Tinha a certeza do amor, e a queria mais que tudo no mundo. Mas a Cecília arrumou um namorado, o Tadeu. Gustavo ficou arrasado, teve um início de depressão e jurou nunca mais gostar de meninas tão dissimuladas como Cecília.
Com vinte anos, Gustavo Beltrão iniciou seu curso de Veterinária na faculdade. Era um idealista, gostava de cuidar de animais feridos e desprotegidos. Os professores se encantavam com Gustavo, levava jeito para a coisa, era o que diziam. Gustavo já tinha uma meta estabelecida na cabeça, iria se formar e abrir uma clínica para animais. Estipulava que em seis anos já estaria independente financeiramente. Mas acontece que Gustavo ficou fascinado com um outro curso, Engenharia. Largou a veterinária faltando dois anos pra se formar e voltou a estudar para prestar vestibular novamente.
Aos quarenta anos, Doutor Gustavo Beltrão era um psicólogo respeitado. Possuía um consultório modesto em que tratava todo tipo de caso. Certo dia viu na televisão a propaganda de um carro de última geração. Modelo esportivo. Ficou encantado. Desenvolveu uma obsessão pelo veículo que chegava a preocupar a família. A esposa jura que certo dia o ouviu fazendo barulhos de buzina com a boca enquanto dormia. Mas foi um ano difícil para a economia brasileira. Com o cidadão se matando para comer, Doutor Gustavo se viu obrigado a abandonar o desejo pelo carro caríssimo. Acabou comprando um Golzinho vermelho, semi novo. Beleza de carro.
O Vô Beltrão, aposentado há cinco anos, parecia uma criança perto dos netos. Corria pelo apartamento, chegando até a quebrar ocasionalmente pequenos utensílios decorativos. Era comum vê-lo repetindo pra quem quisesse ouvir, que logo logo iria se mudar para uma fazenda no interior de Minas Gerais. E lá criaria os netos soltos ao ar livre, correndo por todos os lados, livres, enfim, dos objetos quebrados pela casa. Os filhos mais velhos riam do velho Beltrão e diziam que esse fora o carma de sua vida, planejar cada detalhe exaustivamente, sempre com o intuito de ser o senhor de seu destino, mestre de suas vontades. Mas acontece que a vida, essa intrépida imprevisível, sempre alterava o curso das coisas, para o bem ou para o mal.
E lá se foram mais uma vez seus planos por água abaixo: Beltrão ficou gravemente doente. e os médicos disseram que em poucos meses seu quadro poderia se agravar. A fazenda fora descartada, afim de pagar o caro tratamento.
No leito de morte, a última vontade de Gustavo Beltrão Dias era que trouxessem uma bicicleta e colocassem no quarto. Não precisava ser nova, nem havia qualquer restrição à cor ou tamanho. Tinha de ser uma bicicleta. Os médicos não entenderam muito bem, tampouco a família. O enfermo apenas garantiu que era algo pessoal. Assim sendo, não foi feita nenhuma objeção. Depois de algum tempo conseguiram uma bicicleta com um garoto do bairro, ela logo estaria ali. Ele iria, enfim, ter o seu desejo mais primitivo realizado. Ah, mas a vida é uma intrépida imprevísivel. Quinze minutos depois a bicicleta chegou ao hospital.
Mas acontece que Gustavinho morreu antes de vê-la.
Gustavinho iria fazer três anos e queria muito uma bicicleta. Implorava por uma bicicleta, chorava, esperneava. Orgulho dos pais: tão novo e tão certo do que queria, seria sem dúvida um traço da personalidade forte da mãe, diziam todos. Veio o dia do aniversário e nada de bicicleta. Ganhou uma bola de futebol, roupas Fido Dido e uma espada de brinquedo. Nem um monociclo sequer.
Aos dez anos, Gustavinho era um Palmeirense roxo. Já sabia entoar as canções do time, a escalação completa, e sempre procurava conseguir as figurinhas do Palmeiras do álbum do Brasileirão. Seu sonho era ir ao estádio ver um jogo do time de coração, e conhecer de perto seus ídolos. Mas aquele ano o Palmeiras teve uma campanha sofrível, perdeu a maioria dos jogos e não levantou nenhum caneco. Um vexame. Gustavinho, hostilizado pelos amigos que torciam por outros clubes, ficou traumatizado e parou de acompanhar os jogos do Palmeiras; futebol, dizia, nunca mais!
Gustavo estava na oitava série quando se apaixonou pela primeira vez. Era uma paixão aterradora, que o distraía de tudo mais que acontecia ao seu redor. Quando via Cecília seu coração disparava, suas mãos suavam. Tinha a certeza do amor, e a queria mais que tudo no mundo. Mas a Cecília arrumou um namorado, o Tadeu. Gustavo ficou arrasado, teve um início de depressão e jurou nunca mais gostar de meninas tão dissimuladas como Cecília.
Com vinte anos, Gustavo Beltrão iniciou seu curso de Veterinária na faculdade. Era um idealista, gostava de cuidar de animais feridos e desprotegidos. Os professores se encantavam com Gustavo, levava jeito para a coisa, era o que diziam. Gustavo já tinha uma meta estabelecida na cabeça, iria se formar e abrir uma clínica para animais. Estipulava que em seis anos já estaria independente financeiramente. Mas acontece que Gustavo ficou fascinado com um outro curso, Engenharia. Largou a veterinária faltando dois anos pra se formar e voltou a estudar para prestar vestibular novamente.
Aos quarenta anos, Doutor Gustavo Beltrão era um psicólogo respeitado. Possuía um consultório modesto em que tratava todo tipo de caso. Certo dia viu na televisão a propaganda de um carro de última geração. Modelo esportivo. Ficou encantado. Desenvolveu uma obsessão pelo veículo que chegava a preocupar a família. A esposa jura que certo dia o ouviu fazendo barulhos de buzina com a boca enquanto dormia. Mas foi um ano difícil para a economia brasileira. Com o cidadão se matando para comer, Doutor Gustavo se viu obrigado a abandonar o desejo pelo carro caríssimo. Acabou comprando um Golzinho vermelho, semi novo. Beleza de carro.
O Vô Beltrão, aposentado há cinco anos, parecia uma criança perto dos netos. Corria pelo apartamento, chegando até a quebrar ocasionalmente pequenos utensílios decorativos. Era comum vê-lo repetindo pra quem quisesse ouvir, que logo logo iria se mudar para uma fazenda no interior de Minas Gerais. E lá criaria os netos soltos ao ar livre, correndo por todos os lados, livres, enfim, dos objetos quebrados pela casa. Os filhos mais velhos riam do velho Beltrão e diziam que esse fora o carma de sua vida, planejar cada detalhe exaustivamente, sempre com o intuito de ser o senhor de seu destino, mestre de suas vontades. Mas acontece que a vida, essa intrépida imprevisível, sempre alterava o curso das coisas, para o bem ou para o mal.
E lá se foram mais uma vez seus planos por água abaixo: Beltrão ficou gravemente doente. e os médicos disseram que em poucos meses seu quadro poderia se agravar. A fazenda fora descartada, afim de pagar o caro tratamento.
No leito de morte, a última vontade de Gustavo Beltrão Dias era que trouxessem uma bicicleta e colocassem no quarto. Não precisava ser nova, nem havia qualquer restrição à cor ou tamanho. Tinha de ser uma bicicleta. Os médicos não entenderam muito bem, tampouco a família. O enfermo apenas garantiu que era algo pessoal. Assim sendo, não foi feita nenhuma objeção. Depois de algum tempo conseguiram uma bicicleta com um garoto do bairro, ela logo estaria ali. Ele iria, enfim, ter o seu desejo mais primitivo realizado. Ah, mas a vida é uma intrépida imprevísivel. Quinze minutos depois a bicicleta chegou ao hospital.
Mas acontece que Gustavinho morreu antes de vê-la.
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