quarta-feira, 4 de julho de 2012

Samba


A multidão aplaude de pé os últimos acordes daquela música que todos gostam.
Uma euforia generalizada toma conta do ambiente. Em êxtase, as pessoas gritam. Os arrepios são quase perceptíveis em microondas de choque que vão passando em fileiras. Um momento de catarse que apenas alguns eventos específicos conseguem nos proporcionar no decorrer da vida.
Em pé, na escada, tomo os últimos goles da cerveja, já quente, que repousa em minha mão. Ao meu lado algumas garotas pedem Bis e clamam por outros grandes sucessos. Me sinto mal por não compartilhar daquele momento coletivo. A multidão grita como um só ser. E eu apenas me encontro ali, como um organismo estranho àquele corpo. Uma bactéria. Um parasita.
De repente me dou conta de toda a solidão que permeia o homem, desde os primórdios. Quantas pessoas ali não escondem segredos, não possuem masmorras enterradas tão fundo em suas almas que nem o melhor dos exploradores é capaz de descobrir. Ora essa, como é possível estarmos todos juntos, se no fundo é cada um por si. E mulheres e crianças na frente! Compartilho da ideia de que cada homem é senhor de si. Do seu destino. É tudo uma questão de se achar um rumo, um norte, um tesouro no fim do arco-íris. E navegar até ele, mesmo que os icebergs pelo caminho arranhem a lataria ou afundem parte da tripulação.
Enquanto a banda afina seus instrumentos para a próxima música, me distraio na busca por respostas. Tem que haver um propósito para sermos assim. Cada pessoa possui uma marca, uma característica peculiar, um pequeno detalhe que a diferencie de todas as outras. Não há duas pessoas iguais no mundo, nem mesmo os gêmeos! Não é incrível? Esse detalhe pode ser uma pintinha no rosto ou uma coleção do Gil na estante. É isso. Cada multidão é feita de indivíduos. E cada indivíduo é em si uma multidão. Mas existem mais respostas a serem buscadas, mais perguntas a serem feitas.
E acho que já estou um pouco bêbado.
A banda começa a tocar outra música. É um samba do Chico.

'Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente/ ou foi o mundo então que cresceu...'

Olho para o céu, mas não há estrelas. Nem perspectivas. Até a lua faz que não é com ela e fica preguiçosa atrás de nuvens. Coloco as mãos no bolso e vou atrás de outra cerveja. Não se pode mais confiar no infinito como antigamente.