sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Astronauta


Havia paz. Paz e escuridão. Escuridão e silêncio. E mais nada.

E havia o Astronauta.

Vagando pelo espaço há mais tempo que conseguia se lembrar. À deriva naquele mar negro pontilhado por estrelas aqui e ali. Ao longe, a nave-mãe flutuava tristemente. E o Astronauta solto no espaço. Impossibilitado pelas leis da física de voltar para a nave. Voltar para casa.

Perdido na imensidão bela e misteriosa, o Astronauta era um nada. Um pequeno átomo disperso no Universo. Tirado de seu curso natural. Uma pequena mancha de tinta na pintura. Orbitando aleatoriamente por um mundo desconhecido. Só.
O nível de oxigênio de seu traje diminuía progressivamente. A respiração embaçava o visor do capacete. 

O Astronauta sentia medo. Apesar de todos os anos de treinamento árduo e intenso, nada o preparara para aquilo. E o coração do Astronauta retumbava no Espaço Sideral.
E então, quando sua esperança se eclipsava, algo chamou a atenção do Astronauta.

Logo à sua frente, emoldurada em um portal, uma nebulosa de estrelas. Uma mistura de cores e luzes em contraste com o véu negro do céu de toda parte. A visão mais incrível de sua existência.

Tomado por tal emoção de uma imagem que talvez nenhum homem na Terra jamais pudesse ver, o Astronauta sentiu-se único. Aceitando a ironia do destino, o Astronauta abraçou o desconhecido e esperou pela morte. Que era bela. E o Astronauta chorou.

Acontece que o Astronauta não morreu. Uma missão espacial de resgate o encontrou pouco tempo depois, bem longe da nebulosa fantástica. Quase sem oxigênio. Mas vivo. E o Astronauta voltou pra casa.

Na Terra, virou celebridade. Dava entrevistas, tirava fotos. Só se falava no Astronauta. Era um herói de nossos tempos. Um sobrevivente. Lançaram bonecos do Astronauta. As crianças colocavam caixas de papelão na cabeça e saíam disparando raios invisíveis com a boca pelas ruas. Só se falava no Astronauta.

Mas o Astronauta não era feliz. Alguma coisa estava vazia dentro dele. Nem os flashes, nem a fama, nem o dinheiro, conseguiam fazer o Astronauta voltar do mundo da Lua. Em seu delírio, o Astronauta não era mais capaz de ver beleza à sua volta. Não depois de ter encontrado algo tão fabuloso como a nebulosa espacial. Nada o agradava, nenhuma mulher o satisfazia, os amigos não tinham mais graça. O Astronauta não suportava a ideia da existência de uma coisa tão extraordinária, capaz de superar qualquer outra jamais vista, tão longe dele. Impenetrável, intocável. Invisível. 

E o Astronauta foi infeliz pelo resto da vida.

Quando dormia, o Astronauta sonhava.

Nos sonhos, havia paz. Paz e escuridão. Escuridão e silêncio.

E havia a Nebulosa.