Não haviam luzes piscando ou neve caindo. Ninguém entoava canções na noite fria de dezembro, nem velhos barrigudos estavam vestidos com roupas vermelhas surradas para conseguirem trocados e por sorte gastarem tudo em bebidas e cigarros.
Ainda assim, era Natal.
Sentado em um banco de praça como sempre fazia nessa época do ano, com os braços cruzados e o olhar vago de quem tenta entender, ele aguardava. Não sabia ao certo quem ou o que. Não era um homem de fé, mas sempre ouvira que no Natal milagres costumam acontecer.
Então, sentado em um banco de praça, ele aguardava.
Na garganta, vestígios de cachaça e rancor. Sentimentos sufocados que lhe subiam em refluxo sempre que via algum comercial de margarina com uma família perfeita e feliz. No colo, um maço de Marlboro pela metade e uma carteira sem cartões de crédito ou dinheiro.
Era um Natal como todos os outros.
Em algum lugar ali perto a igreja badalou os sinos. Faltavam dez minutos para meia noite. Ao longe, alguns fogos de artifício já coloriam o céu azulado.
Envolto em toda a melancolia que só os anúncios de Bancos em final de ano podem proporcionar, pegou a carteira apenas para ocupar as mãos. Escavando entre recibos e papéis inúteis, puxou uma velha fotografia amarelada de um rapaz feliz entre um garoto e uma garota aparentemente alguns poucos anos mais velhos, e um casal sorridente. A foto fora tirada em um Natal há algumas décadas atrás.
Um Natal exatamente como este.
O rapaz feliz encarava o homem triste com vivacidade e indiferença, congelado em um momento feliz de muitos anos passados. O homem triste devolvia o olhar buscando aquela sensação de volta, no âmago de todas as coisas. Seus olhos cansados passaram então a encarar os jovens ao seu lado, e se deu conta de quanto tempo não os via. Não se lembrava da última vez que trocaram palavras, por mais simples que fossem. Nem ao telefone. Alguma briga estúpida, aliada a orgulhos e privações. Coisa miúda. Irmãos separados por gênios difíceis e as dificuldades de toda uma vida de compromissos.
Perdido em reminiscências, se lembrou de seus pais. E dos momentos bons que tiveram. E dos ruins. Chegou até a se surpreender sentindo falta de coisas que podia jurar acharem completamente chatas. Talvez fosse essas as coisas que ele mais sentisse falta, entre todas. Da foto, o casal o encarava, distante de qualquer plano astral que ele conhecesse. Meia noite badalava na igreja.
Era Natal.
Engoliu em seco e abaixou a cabeça. Revirando suas profundezas, encharcado por momentos de uma vida que nem parecia ser sua mais, sentiu-se emergindo de águas turvas. Levantou-se desajeitado com a pressa de quem reaprende a andar, e finalmente entendeu que não precisava mais aguardar. Os cantos de sua boca tremeram levemente, e inspirando profundamente, ele foi viver.
Depois de tantos anos, ali estava seu milagre. Era Natal.