domingo, 25 de dezembro de 2011

O âmago de todas as coisas

Não haviam luzes piscando ou neve caindo. Ninguém entoava canções na noite fria de dezembro, nem velhos barrigudos estavam vestidos com roupas vermelhas surradas para conseguirem trocados e por sorte gastarem tudo em bebidas e cigarros.
Ainda assim, era Natal.
Sentado em um banco de praça como sempre fazia nessa época do ano, com os braços cruzados e o olhar vago de quem tenta entender, ele aguardava. Não sabia ao certo quem ou o que. Não era um homem de fé,  mas sempre ouvira que no Natal milagres costumam acontecer.
Então, sentado em um banco de praça, ele aguardava.
Na garganta, vestígios de cachaça e rancor. Sentimentos sufocados que lhe subiam em refluxo sempre que via algum comercial de margarina com uma família perfeita e feliz. No colo, um maço de Marlboro pela metade e uma carteira sem cartões de crédito ou dinheiro.
Era um Natal como todos os outros.
Em algum lugar ali perto a igreja badalou os sinos. Faltavam dez minutos para meia noite. Ao longe, alguns fogos de artifício já coloriam o céu azulado.
Envolto em toda a melancolia que só os anúncios de Bancos em final de ano podem proporcionar, pegou a carteira apenas para ocupar as mãos. Escavando entre recibos e papéis inúteis, puxou uma velha fotografia amarelada de um rapaz feliz entre um garoto e uma garota aparentemente alguns poucos anos mais velhos, e um casal sorridente. A foto fora tirada em um Natal há algumas décadas atrás.
Um Natal exatamente como este.
O rapaz feliz encarava o homem triste com vivacidade e indiferença, congelado em um momento feliz de muitos anos passados. O homem triste devolvia o olhar buscando aquela sensação de volta, no âmago de todas as coisas. Seus olhos cansados passaram então a encarar os jovens ao seu lado, e se deu conta de quanto tempo não os via. Não se lembrava da última vez que trocaram palavras, por mais simples que fossem. Nem ao telefone. Alguma briga estúpida, aliada a orgulhos e privações. Coisa miúda. Irmãos separados por gênios difíceis e as dificuldades de toda uma vida de compromissos.
Perdido em reminiscências, se lembrou de seus pais. E dos momentos bons que tiveram. E dos ruins. Chegou até a se surpreender sentindo falta de coisas que podia jurar acharem completamente chatas. Talvez fosse essas as coisas que ele mais sentisse falta, entre todas. Da foto, o casal o encarava, distante de qualquer plano astral que ele conhecesse. Meia noite badalava na igreja.
Era Natal.
Engoliu em seco e abaixou a cabeça. Revirando suas profundezas, encharcado por momentos de uma vida que nem parecia ser sua mais, sentiu-se emergindo de águas turvas. Levantou-se desajeitado com a pressa de quem reaprende a andar, e finalmente entendeu que não precisava mais aguardar. Os cantos de sua boca tremeram levemente, e inspirando profundamente, ele foi viver.
Depois de tantos anos, ali estava seu milagre. Era Natal.

Nenhum comentário:

Postar um comentário