Na sala de espera do hospital, a mãe respirava fundo sentindo as contrações da gravidez. Finalmente chegara a hora. Com uma mão, o pai a confortava e com a outra tentava chamar a atenção das enfermeiras. Seu filho ia nascer!
No cartório, mãe e pai esperavam em uma longa fila para registrar o primogênito. Na dúvida entre Mário e Alberto, optaram por Antônio Carlos.
Foi no natal de 1996 que teve sua primeira grande desilusão. Esperou o Papai Noel debaixo da escada, mas não viu ninguém a não ser seu pai colocando presentes de forma suspeita sob a árvore. E o pior: nada do carrinho de controle remoto que tanto esperara.
No colégio, Antônio Carlos era péssimo em matemática e geografia. A bem da verdade, era péssimo em tudo. Só esperava pela hora do recreio.
A primeira namorada, Priscila Pereira, foi o grande amor de sua vida. Não deu certo. Antônio Carlos quis dar um passo adiante na relação, mas Priscila fez que não. Disse que não estava pronta e que preferia esperar. Resultado, acabou perdendo a virgindade dois meses depois, com o melhor amigo de Antônio Carlos, Rogério Augusto.
Esperou ansiosamente para fazer 18 anos. Mas quando fez, viu que não era lá essas coisas. Como não tinha carro, ia pra faculdade sem poder se exibir para as meninas da sala. E ainda passava a maior parte do tempo no ponto de ônibus, esperando.
Depois de muito tempo esperando a hora certa, finalmente decidiu fazer uma tatuagem. Tatuagens eram maneiras naquela época. Optou por um anagrama japonês abaixo das costelas. Segundo o tatuador, que de japonês não tinha nada, significava 'Esperança'.
Nunca ficava muito tempo nos empregos. Era um funcionário pouco dedicado, e até mesmo preguiçoso. Quando lhe perguntavam se era feliz, dava de ombros. Apenas dizia que estava esperando uma oportunidade melhor.
O casamento não durou mais que sete meses. A família da noiva forçara a união depois que surgiu a notícia de que ela estava grávida de Antônio Carlos. Depois ela revelou que não esperava um filho dele. E sim do padrinho de casamento, Rogério Augusto. Separaram-se.
A velhice foi infeliz, solitária e amargurada. Acometido de um grave problema nos rins, esperou, em vão, por um transplante. Acabou não resistindo.
...
No céu, São Pedro o recebeu com os braços abertos.
- Bem vindo, Antônio Carlos. Estávamos esperando por você!
Respirou fundo e rebateu:
- Então é assim que termina?
E São Pedro apenas sorria. Em volta, uma sala com as paredes pintadas de branco. Ali, sem dúvida, era o paraíso.
- Deus está aqui?
Silêncio constrangedor.
- Responda, Deus está aqui?
Mais silêncio.
- Quero vê-lo!
São Pedro respirou fundo.
- Sim, Deus está aqui. Vou chamá-lo. Só tem um probleminha...
E Antônio Carlos, já sem paciência:
- E qual é?
- Receio que você vai ter que esperar...
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
sábado, 12 de janeiro de 2013
Causa Perdida
Acabou. Não dá mais. Você chegou ao seu limite. Depois de dedicar toda a sua força, energia e paciência, você se convence de que está insistindo em uma causa perdida. É preciso saber reconhecer uma causa perdida. E assumir pra si mesmo de que não se pode lutar contra.
Fatalmente esse momento iria chegar. Não foi uma decisão fácil.
A luta interna que você travou seria digna de um grande filme de ação. Mas, em um arrombo de maturidade você finalmente percebeu que você está emaranhado em um relacionamento destrutivo. Você se cansou das teimosias, das manias, das manhas, dos trejeitos. Até as coisas mais simples começam a te irritar, e pensando bem, você consegue coisa melhor.
Você se enche de coragem. Vamos lá, você consegue. É agora. Você vai finalmente dizer que aquilo não está dando certo. Por um momento você pensa em desistir. Quem sabe fugir, correndo, e tentar um outro dia. Mas é tarde demais, você já tocou a campainha e escuta passos do outro lado da porta. Seu coração dispara, mas você se mantem firme. Decidido. Você é um campeão, rapaz. Um leve ímpeto te faz pensar que a ideia da fuga não era tão ruim, mas então alguém abre a porta.
É ela. A razão de sua perda de cabelo precoce e do retorno ao vício do cigarro. Inclusive você sente uma vontade incontrolável de fumar um exatamente agora. Mas continua focado. Você está ali por uma razão. É hora de colocar um ponto final nessa história, sem mais delongas. Você está prestes a dizer que vai embora pra não voltar nunca mais. É agora.
Você percebe que a situação beira o ridículo pois ficou parado em silêncio como uma samambaia humana por uns 15 segundos. Então, ela, com os braços cruzados e um ar de leve impaciência por você ainda não ter aberto a boca desde que chegara ali, te olha com aqueles olhos estupidamente doces. E você percebe que foi derrotado, mais uma vez.
Você vira as costas e desiste do que ia falar. Não dá pra resistir a um par de olhos como esses, você pensa. É preciso saber reconhecer uma causa perdida.
Você reconhece e dá de ombros. Ela, num tom de voz que dança entre o divertimento e o sadismo ainda pergunta se amanhã você vem de novo. E você vai.
Fatalmente esse momento iria chegar. Não foi uma decisão fácil.
A luta interna que você travou seria digna de um grande filme de ação. Mas, em um arrombo de maturidade você finalmente percebeu que você está emaranhado em um relacionamento destrutivo. Você se cansou das teimosias, das manias, das manhas, dos trejeitos. Até as coisas mais simples começam a te irritar, e pensando bem, você consegue coisa melhor.
Você se enche de coragem. Vamos lá, você consegue. É agora. Você vai finalmente dizer que aquilo não está dando certo. Por um momento você pensa em desistir. Quem sabe fugir, correndo, e tentar um outro dia. Mas é tarde demais, você já tocou a campainha e escuta passos do outro lado da porta. Seu coração dispara, mas você se mantem firme. Decidido. Você é um campeão, rapaz. Um leve ímpeto te faz pensar que a ideia da fuga não era tão ruim, mas então alguém abre a porta.
É ela. A razão de sua perda de cabelo precoce e do retorno ao vício do cigarro. Inclusive você sente uma vontade incontrolável de fumar um exatamente agora. Mas continua focado. Você está ali por uma razão. É hora de colocar um ponto final nessa história, sem mais delongas. Você está prestes a dizer que vai embora pra não voltar nunca mais. É agora.
Você percebe que a situação beira o ridículo pois ficou parado em silêncio como uma samambaia humana por uns 15 segundos. Então, ela, com os braços cruzados e um ar de leve impaciência por você ainda não ter aberto a boca desde que chegara ali, te olha com aqueles olhos estupidamente doces. E você percebe que foi derrotado, mais uma vez.
Você vira as costas e desiste do que ia falar. Não dá pra resistir a um par de olhos como esses, você pensa. É preciso saber reconhecer uma causa perdida.
Você reconhece e dá de ombros. Ela, num tom de voz que dança entre o divertimento e o sadismo ainda pergunta se amanhã você vem de novo. E você vai.
Assinar:
Comentários (Atom)