terça-feira, 5 de junho de 2012

Bobagens e afins

Oi. Tudo certo? Tudo indo bem? Senta aqui, vamos conversar. Não, não vou te tomar muito tempo, é rapidinho.  Puxa, por onde começar? São tantas coisas que eu queria te dizer que nem sei por onde... Minha mãe sempre dizia que eu tinha dificuldade pra organizar o raciocínio. Ela dizia que eu tinha um vermezinho na cabeça, que embaralhava o pensamento. Acho que ela tinha razão. Vai ver por isso sempre gostei de escrever. Desde pequeno. Um papel e caneta e pronto, ali estava um menino feliz. Acho que nessa época surgiu o sonho de ser escritor. Vê se pode, escritor! No Brasil. Até flanelinha ganha mais nesse país. Mas o que uma mãe não faz pra ver um filho feliz né? Quer ser escritor meu filho? Que coisa maravilhosa! Agora termina de comer toda a couve do prato ou vai ficar sem sobremesa! E assim durante muito tempo me alimentei de couves, sobremesas e desse sonho bobo. Engraçado como a gente tem sonhos bobos né? Quando se é criança é bom sonhar. Depois a gente cresce e vem o senso do ridículo e a necessidade de ganhar dinheiro e leva tudo da gente. Mas espera, não é disso que eu quero falar. Calma, eu já chego lá. Você tá bem bonita, fez alguma coisa no cabelo? Tá diferente. Sempre gostei de cabelo de mulher. Lembro que quando tinha uns quinze anos me apaixonei pela nuca de uma garota. Dá pra acreditar? Eu me sentava algumas cadeiras atrás dela no colégio. Aí um dia desses, como outro qualquer, ela prendeu o cabelo num coque enquanto anotava equações do quadro negro. Ficaram uns fiozinhos de cabelo caindo na nuca, sabe? Fiozinhos de cabelo na nuca, a ruína de um homem. Paixão instantânea. Nessa época meu fascínio pela escrita andava meio renegado. Mas você me conhece. Essa minha timidez crônica era ainda pior naquela época. Veja você, com medo de encarar uma nuca. E aí veio a ideia de escrever uma carta pra ela. E assim eu fiz. Coloquei no armário de livros dela, sem assinatura, claro. O plano perfeito. Puxa, como eu era brega. Mas, veja como são as coisas. Ela acabou gostando. Achou fofo, até. Sempre tive pavor dessa palavra: fofo. Parece que a pessoa não tem adjetivos pra descrever quão grande foi seu papel de ridículo e acaba te presenteando com um 'fofo'. Não há nada que um tímido tenha mais medo do que bancar o ridículo. Não é necessário dizer que eu frequentemente o fazia. Tá rindo, né? Não tem nada de engraçado nisso. Tá, talvez tenha um pouco. Claro que não deu certo com a menina dos fios na nuca. Veja só, meninas acham 'fofo' que lhe mandem cartas. Faz bem pro ego, ou coisa assim. Mas há muito eu aprendi que os 'fofos' não tem espaço na hora que o jogo é pra valer. Pelo menos recuperei meu gosto por escrever, e isso meio que foi o combustível da minha vida para os anos seguintes. Pensei até em fazer Jornalismo, por que não? Felizmente não o fiz. Acho que não teria estômago pra uma profissão dessas. De vez em quando ainda penso nisso. Sou do tipo que remói a dúvida do que poderia ter sido. Cada decisão que a gente toma na vida, por menor que seja, altera o curso das coisas. Cada ação repercute no nosso trajeto nesse mundo. Inclusive quando não agimos. Será que eu fiz certo ao não cursar Jornalismo? A menina dos fios na nuca era a mulher da minha vida e eu deixei escapar? Tomar chá de manhã foi a melhor opção? Tá me entendendo? Essa vida é muito incerta. Sempre tive dificuldades em tomar escolhas. E se eu virar à direita no lugar errado e nunca mais encontrar meu caminho de volta? Não me leve a mal, não é que eu não saiba o que eu quero. Mas a ideia de um mundo de possibilidades é, no mínimo, assustadora. Seria muito mais fácil se tudo fosse como num jogo de War. Você nasce, recebe seus objetivos pra ganhar a partida, e joga os dados. Deixando tudo nas mãos do acaso e da sua habilidade de combater exércitos inimigos. Mas que não me venham com a carta de dominar um território à sua escolha. Acho que não conseguiria decidir qual deles e aí, olha lá, os exércitos verdes tão me atacando no Sudão e lá se foi minha estratégia. Falando em escolhas preciso de ajuda pra decidir pra onde ir nessas férias. Mas isso é assunto pra outro dia. Aceita uma balinha? É de café. Incrível como ando viciado em café. Sempre detestei, até o cheiro. Depois de quatro anos e alguns meses de faculdade bem mal dormidos você acaba sem opção. Hoje, olhando pra trás, vejo como sou uma pessoa diferente da que eu era. Talvez a timidez e a aversão por couves ainda continuem firmes e fortes, mas acho que acabei criando uma nova casca pro meu casulo. Toda mudança é válida, desde que seja pra melhor. Mudanças... por quantas já devo ter passado. E quem não passa? Perdi até as contas. Ainda lembro do dia em que te conheci. E aqui estamos, nós dois, sentados nesse corredor imundo, tão diferentes quanto poderíamos imaginar. História engraçada, a nossa. Digo, quais eram as probabilidades certo? Não acredito nessas bobagens de destino, mas as vezes acho que o Universo gosta de aprontar das suas. Lembro que te achei uma chata à primeira vista. O que? Não me olha assim, aposto que você pensou o mesmo de mim. Mas você logo tratou de apagar essa impressão. Algumas semanas depois e eu não te tirava da cabeça. E olha que nem precisei ver sua nuca. Logo eu, que achava que se apaixonar era falha de caráter. Aí vem você, sabe-se lá de onde, e muda toda uma vida de convicções construídas na base de decepções e erros. Sinto falta de quando você, no meio de uma conversa séria, simplesmente deixava escapar uma careta. Uma careta! Tão espontânea e natural, quase como uma criança. Parando pra pensar, sinto falta de tanta coisa. Bobagens, principalmente. Depois, com a mesma naturalidade que você entrou em minha vida, você simplesmente saiu dela. Sem maiores dramas como nos filmes ou nas novelas. Sem nenhum ato heróico que coroasse aquilo tudo. Você simplesmente acordou uma manhã e mudou de estação de rádio. E é assim. Abrindo mão de sonhos pelo caminho mas sem perder a habilidade de sonhar. Sonhos bobos, que sejam. Ora, e quem é que vai julgar isso? Talvez se eu não tivesse desistido de tantas coisas nunca teríamos nos encontrado, quem sabe? Talvez se você não tivesse desistido de mim, o que poderia ter sido? E agora, vendo você aqui na minha frente, só consigo pensar em um bêbado montando um quebra-cabeças. Tudo se encaixa, mas nenhuma imagem é formada. Aí ele solta um palavrão e bagunça todas as peças de novo. Acha que tô exagerando? O que é isso... É que, sei lá, acaba ficando muita coisa suprimida. Lá vou eu me emocionar de novo. Acho que é esse remédio que ando tomando, nunca se sabe. Esse é o seu sinal? Ah, certo. Tudo bem, a gente se vê por aí né? Foi bom te encontrar, ver que anda tudo bem. Se cuida hein? Até.

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