terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Jardinagem


No jardim da minha casa nasceu uma flor.

Minha primeira reação foi o espanto. Nunca florescera nada ali. Apenas algumas ervas daninhas. A bem da verdade, o jardim era mais uma morada de insetos e outros bichos barulhentos durante a noite. E ali estava, pequena, indefesa, e amarela.

Cheguei perto, com receio. Minha habilidade com a jardinagem se equivale a minha habilidade em montar búfalos raivosos. Ou seja, nenhuma. Definitivamente era uma flor. Sem saber o que fazer, dei de ombros e a deixei ali. Que a natureza cuidasse daquilo que é seu, e estamos conversados.

Mas acontece que a indiferença é uma porção exagerada de abacate. No começo você consegue comer tranquilamente, mas depois de um tempo o sabor amarga na boca. Dividido entre curioso e cuidadoso, comecei a monitorar meu quintal. Eventualmente passei a regá-la. Em pouco tempo, a indefesa flor amarela ganhava minha simpatia. E foi aí que tudo desandou.

Cuidar da planta era uma coisa casual, que eu fazia depois do almoço. Nada mais que um passatempo saudável. Passar alguns minutos no jardim renovava as energias e fazia bem. Achava legal, até, zelar por algo que não me pertencia por completo. Abracei a causa e arregacei as mangas.

Fui seu protetor, em dias de sol e chuva. Desafiei ventanias e suportei dias secos. Reguei, aparei e dei amor, ou algo parecido. 
Com a minha ajuda, a flor amarela cresceu.

Reinava absoluta, rainha solitária e soberana do meu jardim. Era a primeira coisa em que eu pensava depois de acordar, e a última antes de dormir. Dividia minha alegria com amigos, que não entendiam. Apenas balançavam a cabeça, caridosamente. 'Enlouqueceu'. 

Então, sem aviso prévio, de maneira inesperada, assim como surgira, a flor desaparecera. Custei a acreditar. No chão batido, apenas o caule, partido. Algum bicho sorrateiro provavelmente arrancara a flor durante a noite, longe dos meus olhos e do meu cuidado. Meu pequeno milagre, enfim, tirado de mim. Um crime sem vestígios. Sem mais nada a fazer, aceitei conformado aquela ironia do destino. E a vida seguiu seu curso.

Com o tempo, peguei gosto pela jardinagem. Fiz crescer outras flores, de diferentes tamanhos e cores. Transformei por completo meu quintal, assim como ele um dia havia também me transformado. Mas naquele cantinho, naquele lugarzinho específico em que a pequena flor amarela florescera, nunca mais nasceu nada. Apesar de todo meu esforço e dedicação, um pequeno vão jazia tristemente em meio às flores.

Desolado, vislumbrei meu jardim. Mais uma vez, deserto.

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