Não importa a idade, a orientação sexual, se é flamenguista ou vascaíno, ateu-protestante-praticante-apóstolico romano. Nada disso. A filosofia do Espírito Natalino acomete a todos. Uma epidemia de grandes proporções, que invade as casas, apartamentos, pontes e almas, se infiltrando pela janela na forma de uma canção da Simone ou de um comercial da Coca-Cola.
O sujeito pode ter passado o ano todo de mal humor, ou sendo um tremendo filha da puta. Pode ter perdido a namorada para o melhor amigo ou descoberto sua vocação secreta para ser pescador de golfinhos albinos e se mudado para a Malásia, ou algo parecido. O 'Espírito Natalino' não sabe distinguir essas peculiaridades. Ele ataca e pronto. É assim que funciona.
Existe uma melancolia subentendida no Natal. Algo de mágico que mexe com as masmorras dentro do peito de cada um. Uma força que enfraquece os rancores dos ranzinzas e deixa o coração inundado em ternura e nostalgia. Uma espécie de felicidade triste, que renova a força e conforta os pequenos flagelos do dia-a-dia. Até o pessimismo faz que não é com ele e dá uma folga. É parte da energia que envolve a data, uma neblina que paira no ar.
As famílias, desfuncionais ou não, se reúnem em torno de uma mesa repleta de comida e constrangimentos. Tantas palavras não ditas, tantas mágoas alimentadas pelo tempo, ficam a postos esperando o momento certo para causarem a indigestão. Os presentes, sejam eles fabulosos ou bijuterias de R$1,99, são distribuídos. E todos ficam alegres. Isso tudo regado àquelas velhas piadas com o pavê, comentários a respeito de como fulano cresceu e as pontuais perguntas que atormentam a vida dos solteiros: 'E as namoradas?'. Tiro e queda.
Aquele tio distante que você suspeita ser um figurante contratado só para essas ocasiões aparece com um repertório de anedotas mais antigas que andar pra frente. A criançada corre pela casa com as bocas sujas de doces com as mães descabeladas em suas colas. Aquela pessoa que você não via há tempos te arranca um sorriso com uma mensagem inesperada de celular. Os mais céticos debocham de como são tolos aqueles que vêem o Natal como mais do que uma data comercial, mas no fundo se pegam desejando que as coisas melhorem. E elas, eventualmente, vão melhorar.
E no final da noite, quando todos já estão empanturrados e embriagados com aquele vinho de gosto duvidoso, há quem olhe para o céu com os dedos cruzados na esperança de que uma estrela realize um milagre de natalino.
Todo Natal é a mesma coisa. E quer saber? Ainda bem.
Todo Natal é a mesma coisa. E quer saber? Ainda bem.
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