terça-feira, 17 de agosto de 2010

A menina e o sapo

Os olhos curiosos de criança percorriam todo o jardim de um canto à outro. Quando avistavam alguma coisa diferente, como uma flor exótica ou formigueiros, lá ia a pequena Clarinha com sua lupa explorar. Ali era seu reino encantado, seu território de infindáveis histórias e aventuras. A mãe lia um livro na varanda, ocasionalmente espiando a pequena exploradora em seu hábitat natural.
De vez em quando, a pequenina soltava exclamações audíveis ao descobrir bichos diferentes pela grama. Quando achava que o 'troféu' era digno de admiração, apresentava-o, orgulhosa, à mãe, descrevendo animadamente como realizara a captura. A mãe, absolutamente encantada, ouvia a narração até que a menina se perdia em sua própria excitação e voltava ao seu vasto mundo mágico. Até o sol parecia brilhar mais forte, se aventurando com Clarinha pelo desconhecido.
Pensou ter avistado um pequeno movimento perto das rosas. Correu o mais silenciosamente que pôde e se abaixou perto do balanço da árvore. Um pequeno reflexo dourado distraiu sua atenção; então, mudando de estratégia, rastejou até o ponto amarelo à sua frente para ver o que era. Ajustou bem a lupa para investigar, quando percebeu que se tratava de uma flor exuberantemente amarela. Alguém havia arrancado-lhe algumas pétalas, mas mesmo assim, Clarinha achou-a fantástica. Quando pegou a flor em suas mãozinhas delicadas, um pequeno borrão verde pulou para o chão. Olhando mais de perto, a menina percebeu que era um pequeno sapo.
Durante alguns segundos Clarinha e o sapo se fitaram. Era difícil dizer quem estava mais surpreso com o encontro repentino. Clara nunca havia visto um sapo de perto antes, no entanto, não estava assustada ou receosa. Pelo contrário, admirava-o de tal forma a ponto de achá-lo fascinante. A mãe, estranhando o súbito silêncio no jardim, deixou o livro de lado e foi checar o que prendia a atenção da filha.

- Clarinha.. o que foi meu bem?
- Mamãe.. olha! Olha que lindo!

A mãe olhou para a Rosa em suas mãos e sorriu.

- É uma Margarida, Clarinha.
- Não mamãe.. tô falando do sapinho, olha!

A mãe então percebeu o sapinho que a menina apontava. Sorrindo ainda mais, se agachou junto à filha.

- Você o acha lindo, Clara?
- Ele é gelado, olha! E a pele é tão diferente, parece uma géleia..
- Bom, algumas pessoas não pensam assim meu bem..
- Como? Como não pensam?
- Veja.. algumas pessoas acham o sapo um bichinho bem nojento..
- Mas mãe.. não tá certo isso. Ele é tão.. tão lindo.

A mãe olhou para a pequena Clara e viu que seus olhos brilhavam. Passou a mão em seus cabelos e colocou a margarida atrás da orelha da filha. A menina continuou olhando o sapo com ternura.

- Clarinha.. as pessoas enxergam a beleza das coisas de formas diferentes. De maneiras diferentes. O importante é que não devemos dizer a elas o que é feio ou o que é bonito. Somos diferentes e devemos conviver com essas diferenças. Temos que respeitar o gosto de cada um, sem nunca julgarmos que o nosso gosto é melhor ou pior que o deles. Você me entendeu?

A menina continuou parada olhando para o sapo. Uma pequena ruga se formara em seu semblante. A mãe percebia que sua garotinha estava crescendo. Passou as mãos em suas costas e a abraçou forte, emocionada. Clarinha se levantou, ainda com a margarida atrás da orelha e o sapinho na mão.

- Mas mãe..
- Sim, filha?
- Ele é lindo.

A mãe deu a mão para a pequena Clara e a levou para dentro. Sorrindo consigo mesma, pensou que ainda haveria tempo, muito tempo, até que Clarinha entendesse.

Só se vive uma vez

Seus pais queriam ter uma menina. Iria se chamar Lindaura e ser advogada, ou médica. Seria linda e loira, com olhos claros e porte de modelo. Teria sucesso, iria viajar para a Europa e teria um apartamento no Leblon. Acontece que, ao invés de Lindaura, tiveram o Gustavinho. Moreno, olhos puxados, baixinho como o pai.
Gustavinho iria fazer três anos e queria muito uma bicicleta. Implorava por uma bicicleta, chorava, esperneava. Orgulho dos pais: tão novo e tão certo do que queria, seria sem dúvida um traço da personalidade forte da mãe, diziam todos. Veio o dia do aniversário e nada de bicicleta. Ganhou uma bola de futebol, roupas Fido Dido e uma espada de brinquedo. Nem um monociclo sequer.
Aos dez anos, Gustavinho era um Palmeirense roxo. Já sabia entoar as canções do time, a escalação completa, e sempre procurava conseguir as figurinhas do Palmeiras do álbum do Brasileirão. Seu sonho era ir ao estádio ver um jogo do time de coração, e conhecer de perto seus ídolos. Mas aquele ano o Palmeiras teve uma campanha sofrível, perdeu a maioria dos jogos e não levantou nenhum caneco. Um vexame. Gustavinho, hostilizado pelos amigos que torciam por outros clubes, ficou traumatizado e parou de acompanhar os jogos do Palmeiras; futebol, dizia, nunca mais!
Gustavo estava na oitava série quando se apaixonou pela primeira vez. Era uma paixão aterradora, que o distraía de tudo mais que acontecia ao seu redor. Quando via Cecília seu coração disparava, suas mãos suavam. Tinha a certeza do amor, e a queria mais que tudo no mundo. Mas a Cecília arrumou um namorado, o Tadeu. Gustavo ficou arrasado, teve um início de depressão e jurou nunca mais gostar de meninas tão dissimuladas como Cecília.
Com vinte anos, Gustavo Beltrão iniciou seu curso de Veterinária na faculdade. Era um idealista, gostava de cuidar de animais feridos e desprotegidos. Os professores se encantavam com Gustavo, levava jeito para a coisa, era o que diziam. Gustavo já tinha uma meta estabelecida na cabeça, iria se formar e abrir uma clínica para animais. Estipulava que em seis anos já estaria independente financeiramente. Mas acontece que Gustavo ficou fascinado com um outro curso, Engenharia. Largou a veterinária faltando dois anos pra se formar e voltou a estudar para prestar vestibular novamente.
Aos quarenta anos, Doutor Gustavo Beltrão era um psicólogo respeitado. Possuía um consultório modesto em que tratava todo tipo de caso. Certo dia viu na televisão a propaganda de um carro de última geração. Modelo esportivo. Ficou encantado. Desenvolveu uma obsessão pelo veículo que chegava a preocupar a família. A esposa jura que certo dia o ouviu fazendo barulhos de buzina com a boca enquanto dormia. Mas foi um ano difícil para a economia brasileira. Com o cidadão se matando para comer, Doutor Gustavo se viu obrigado a abandonar o desejo pelo carro caríssimo. Acabou comprando um Golzinho vermelho, semi novo. Beleza de carro.
O Vô Beltrão, aposentado há cinco anos, parecia uma criança perto dos netos. Corria pelo apartamento, chegando até a quebrar ocasionalmente pequenos utensílios decorativos. Era comum vê-lo repetindo pra quem quisesse ouvir, que logo logo iria se mudar para uma fazenda no interior de Minas Gerais. E lá criaria os netos soltos ao ar livre, correndo por todos os lados, livres, enfim, dos objetos quebrados pela casa. Os filhos mais velhos riam do velho Beltrão e diziam que esse fora o carma de sua vida, planejar cada detalhe exaustivamente, sempre com o intuito de ser o senhor de seu destino, mestre de suas vontades. Mas acontece que a vida, essa intrépida imprevisível, sempre alterava o curso das coisas, para o bem ou para o mal.
E lá se foram mais uma vez seus planos por água abaixo: Beltrão ficou gravemente doente. e os médicos disseram que em poucos meses seu quadro poderia se agravar. A fazenda fora descartada, afim de pagar o caro tratamento.
No leito de morte, a última vontade de Gustavo Beltrão Dias era que trouxessem uma bicicleta e colocassem no quarto. Não precisava ser nova, nem havia qualquer restrição à cor ou tamanho. Tinha de ser uma bicicleta. Os médicos não entenderam muito bem, tampouco a família. O enfermo apenas garantiu que era algo pessoal. Assim sendo, não foi feita nenhuma objeção. Depois de algum tempo conseguiram uma bicicleta com um garoto do bairro, ela logo estaria ali. Ele iria, enfim, ter o seu desejo mais primitivo realizado. Ah, mas a vida é uma intrépida imprevísivel. Quinze minutos depois a bicicleta chegou ao hospital.
Mas acontece que Gustavinho morreu antes de vê-la.

domingo, 4 de julho de 2010

O Rei do Mundo - Parte I

Era dia de clássico na Favela dos Matutos. O time do Ronicleiton chegara na final do Matutão com duas vitórias fáceis sobre o time do Zé Banguela. Eram favoritos absolutos, uma vez que, o time do Janjão tinha empatado o primeiro jogo e ganhado nos pênaltis do time do Tonho Barata.
Pouco a pouco era perceptível a movimentação nos arredores do campinho, que tinha mais terra do que grama. Os amigos do Ronicleiton já começavam a se aglomerar fazendo grandes arruaças e provocando a pequena torcida rival - o Janjão não tinha muitos amigos na favela, não era de bom tom ser amigo de um fugitivo naquela época.
Os dois times entraram em campo sob aplausos e vaias. Logo, Seu Moacir deu início à partida.
Nos primeiros dez minutos, o jogo estava muito confuso e embolado, a equipe de Janjão jogava sem camisa, e a de Ronicleiton, com camisa (embora muitos jogadores não as tivessem de fato). Vandame marcou o primeiro gol, aos vinte e dois minutos, em uma cobrança de falta. E assim o time de Ronicleiton foi para o intervalo com um gol de vantagem.
No segundo tempo, Jaburu chutou de longe, com força, e a bola acabou furando de novo. Quando conseguiram remendá-la o jogo continuou. o time do Ronicleiton estava próximo de se tornar campeão pela terceira vez consecutiva, a torcida já assobiava e gritava ofensas aos jogadores rivais.
Então, numa forte dividida entre Janjão e Beiçola, o capitão do time se deu mal e teve que sair de campo, machucado; não antes de ameaçar pegar a peixeira para intimidar o franzino Beiçola. Confusão no campo. Gritaria, palavrões, ameaças de confronto físico - tudo aquilo que um clássico de verdade prezava. Foi preciso uns dez minutos pro tumulto se dispersar. O juiz gritou que ia chamar a polícia, afugentando boa parte dos brigões. O jogo recomeçou.
No lugar de Janjão entrou o jogador mais jovem do time, o único que não fugira ante a ameaça do juiz: Oscarito.
Oscarito não era muito bom de bola, mas aquele dia mudaria sua vida para sempre.
Era pequeno e raquítico, com olhos grandes e cabelos enrolados. Abaixo do peso e da altura para sua idade, julgavam-no mais novo do que era. As canelas finas, os dentes tortos, os ombros caídos. Um típico garoto Matuto.
No seu primeiro lance Oscarito driblou três adversários e estufou as grades do campinho. Empate aos quinze minutos do segundo tempo. O lance parecia ter animado e inspirado seus companheiros, que começaram a jogar com mais vontade. Faltando dois minutos para o fim do jogo, Oscarito deu dois chapéus dentro da área e chutou firme - outro golaço! Algum tempo depois, os mais velhos comparariam este lance ao famoso gol de Pelé em 58. Fim de jogo, vitória de virada do time sem camisa, e um novo pequeno herói consagrado: Oscarito.
Enorme euforia, até quem torcia contra venerou o garoto magro, que parecia não acreditar no próprio feito. O pai, seu Firmino, não continha o choro. A criançada gritava o nome de Oscarito, e os cachorros de rua faziam coro latindo e correndo.
Nos dias que se passaram, Oscarito se transformou na sensação da favela. Todos o parabenizavam pelo talento, pediam que ele narrasse os próprios lances geniais - o que o garoto fazia com muita humildade e certa timidez - abraçavam-no, até beijavam-no. Os traficantes mandavam pacotes de presentes para sua casinha (todos devidamente confiscados por seu Firmino). Pagavam-lhe salgados e refrigerantes, davam-lhe balinhas e picolés. Oscarito era o novo, e talvez único, ídolo genuíno dali, da favela dos Matutos.
Até que duas semanas depois, enquanto jogava bola naquele mesmo campo que o consagrara, o destino veio bater à sua porta.
- Oscarito! Venha cá, menino!
Seu Firmino chamava o filho da beira do campo, estava acompanhado de um homem gorducho e risonho.
- Pai.. o que foi?
- Oscarito.. este é o senhor Dirceu Ventura.
- Olá, Oscarito. - disse o gorducho, de modo simpático - Hoje é seu dia de sorte, garoto!
Seu Firmino abriu um largo sorriso, Oscarito apenas piscou os olhos, curioso.


...

(Continua...)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Origens

Os primeiros raios de sol tocavam a areia branca da praia. O mar estava calmo, as ondas batiam nas pedras de maneira sonolenta, trazendo uma sensação de aconchego aos primeiros turistas da manhã. Estirado na margem, um corpo.
Era de um rapaz jovem, moreno, magro. Completamente nu. Não demorou para a cena atrair curiosos. Logo, uma pequena multidão se formava em torno do garoto. Começaram a confabular:
- Está morto?
- Morto, que nada! É um sem vergonha. Deve ter bebido até cair!
- Mas está pelado!
- Algum amigo safado lhe roubou as calças. Pouca vergonha!
- Será que foi assalto? Com a violência do jeito que está...
- Vejam, parece que ele está acordando!
O rapaz piscou lentamente. Aparentemente aturdido. O sol batia forte em seu rosto, só via vultos.
- Tudo bem aí?
- Lurdinha, não olhe!
- Soraia, pegue meu calção na mochila logo ali. Acho que serve nele.
- Qual seu nome, garoto?
O rapaz continuou parado, sem reação. As vozes chegavam em seus ouvidos misturadas ao barulho do mar. Quando conseguiu ordenar os pensamentos, quis responder à pergunta, mas se deu conta de que não sabia onde estava.
- Onde estou? Que lugar é esse?
As pessoas trocaram olhares assustados. Alguns cochicharam, outros esticaram o pescoço para verem melhor. O rapaz não reconhecia ninguém, nem nada por ali.
O burburinho recomeçou.
- Deve estar com amnésia, coitado...
- Amnésia alcóolica! Foi a mesma coisa com aquele traste do Júlio!
- Mamãe! Se controle!
- O que houve com você, rapaz? Onde estão suas roupas?
Ele continuou piscando para as pessoas ali. Fazia força para se lembrar de algum vestígio da noite passada, mas não sabia nem em que dia estavam. Alguns garotos filmavam tudo com celulares, rindo debochadamente. Tentou se lembrar de sua casa, ou de sua família. Talvez estivessem procurando por ele agora. Mas aí se deu conta de que não sabia nem quem era.
- Quem sou eu?
- Ih... pirou.
- Alguém chame um médico!
- Eu disse para não virmos aqui hoje... olha que situação.
- Você é um moleque irresponsável, um beberrão!
- MAMÃE!
Começou a se desesperar. Não se lembrava de nada. Nem seu nome, nem de onde viera. De repente se deu conta da infinidade de possibilidades. Num universo tão vasto, poderia ser qualquer um. A pessoa se perde de si própria sem um ponto de referência, por menor que seja. Não havia ali nada que o ligasse à alguém, nem mesmo ao seu próprio eu. Poderia ser um ateu roqueiro, viciado em café e em história da arte. Ou então um médico ortodoxo, muito rígido e fanático pelo América. E se fosse um ladrão internacionalmente conhecido? Ou um herói contemporâneo? E se fosse um viajante do tempo? Um político corrupto? Não possuía nem roupas que pudessem lhe dar uma pista. Quando Soraia voltou com um calção que era duas vezes o seu número, não pensou duas vezes. Saiu correndo pela praia, totalmente nu e insano. Gritava, um vexame. A multidão ficou perplexa por alguns segundos, observando o jovem se afastar e sumir no mar.

- Cachaceiro!

Dispersaram.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Breve - Música Em Prosa

Pensou nos tempos remotos, quando ainda era um feto dentro de dona Valquíria. Gostava dali, talvez o único lugar em que fora realmente feliz. Ali era quente, confortável. Estava em casa.
Piscou os olhos e viu o seu Romeu o pegando no colo. O primeiro contato com o pai, ainda com o vasto bigode. Quando seus olhos de cachorro velho encontraram o olhar de quem anseia pela vida do porvir, não conteve as lágrimas. Chorou, fazendo coro aos berros do pequeno bebê.
Depois se viu sentado, com o cabelo todo penteado para trás. Dona Valquíria terminava de colocar um par de pequenos tênis em seu pézinho inquieto. A mochila já esperava por ele encostado na pequena mesinha do centro da sala do apartamento antigo. Aquela que seria sua companheira por tantos anos seguintes no longo caminho do aprendizado. O uniforme branco parecia reluzir, mal continha a excitação de seu primeiro dia de aula. Dona Valquíria lhe deu um de seus calorosos beijos - e então se deu conta do quanto sentia falta deles - e abriu a porta.
Seu Romeu segurava firme em sua cinturinha, enquanto o incentivava a continuar pedalando. O medo reverberava em seu coração como poucas vezes na vida, mas a segurança que seu pai lhe dava o enchia de forças para continuar pedalando. Quando o vento começou a bater mais forte em seu rosto, pôde sentir a liberdade pela primeira vez. Pura, casta. Olhou para o lado, mas Seu Romeu já ficara para trás. Estava pedalando sozinho pela primeira vez.
Letícia o conduzia para fora da festa. Seus cabelos ondulavam como serpentes à sua frente. Ele a seguia, hipnotizado. Quando chegaram a um salão parcialmente vazio, exceto por alguns casais. Ela se virou e o encarou, como poucas vezes fora encarado na vida. Ele pôde sentir o frio na barriga de quem despenca por uma montanha russa a toda velocidade. Beijaram-se.
O último da fila era ele. Vinha em passos lentos, ouvindo os aplausos da multidão. Procurou dona Valquíria e seu Romeu através dos flashes de luz, mas era impossível. Subiu no palco ao ser anunciado e pegou o diploma das mãos do reitor. Ouviu um desejo de boa sorte e se juntou aos demais colegas. Jogaram os chapéus pro alto, com gritos de triunfo.
No velório, todos choravam. A notícia do enfarto fora tão repentina quanto inesperada. O velho Romeu, homem tão forte, enfim derrotado. No caixão, parecia uma frágil réplica de um homem de faces rosadas e bigodes ralos. Não conseguiu mais encarar aquela visão tão melancólica, e fechou os olhos.
Estavam nus sob as cobertas. Riam de uma piada boba, um acaso qualquer, riam de si mesmos. Ele passou a mão em seu rosto enquanto ela tocava com a ponta dos dedos a ponta de seu queixo mal barbeado. Sem pensar duas vezes, a beijou longamente e fez o pedido de casamento. Continuaram rindo um do outro.
Ela bateu a porta, com estrondo. O apartamento agora parecia vazio e sem vida. Não entendia por que as coisas tinham que acabar daquele jeito, tão pelo avesso. Levou as mãos aos cabelos, já sentia as entradas se tornando cada vez mais evidentes. Puxou um cigarro do paletó e ficou observando da janela um táxi se aproximar e a levar embora de sua vida para sempre.
Ele estava meia hora atrasado para a palestra. Girou a chave na maçaneta e ouviu o telefone tocar lá de dentro. Era do hospital. Dona Valquíria sentira uma pontada fazendo o café da manhã e desmaiou. Desmarcou a palestra, arrumou rapidamente suas coisas e partiu para o aeroporto.
O avião deu mais uma forte sacudida. Havia uma histeria no ar. Aeromoças tentavam acudir os mais desesperados. Ele abriu os olhos, finalmente. Sentiu sua vida pulsando mais forte do que nunca. Pensou em todos aqueles que amava e que amou na vida, pensou em seus antepassados, em sua jornada.
Pensou em Dona Valquíria. Então percebeu que próximo do fim, voltamos inevitavelmente ao começo de tudo. Descobrimos nossa humanidade e nossos anseios mais profundos justamente quando estamos a beira do abismo. Ali estava sua essência, seus motivos. O Universo fazia sentido, as respostas estavam bem a sua frente. Então o avião estremeceu.
Meia hora depois, as rodas tocaram o chão. O avião, ileso após a turbulência, repousou suas potentes turbinas.
E ele, sentindo-se vivo, pensou na mãe. Estava, enfim, voltando para casa.




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Música Em Prosa será uma sessão do blog, na qual vou utilizar músicas como temas para os contos.
Esse texto foi baseado na música Wheels, da banda Foo Fighters.

sábado, 22 de maio de 2010

Ao Homem Que Tinha Tudo.

A casinha rústica na beira da estrada era iluminada por um pequeno lampião empoeirado. A terra vermelha em volta mostrava que aquele era um dos poucos lugares em que as garras da civilização não haviam cravado o progresso. O vento rangia tábuas ocasionalmente soltas, e assobiava forte nas janelas maltrapilhas do casebre.
O grandioso edifício Colliseum produzia um efeito magnífico recortado contra o pôr-do-sol da metrópole. Seu aspecto colossal fica ainda mais evidente com os raios solares refletindo as escadarias prateadas e o marfim refinado das colunas verticais. No meio do saguão, o barulho da água que saía do chafariz dourado garantia a tranquilidade dos privilegiados que passavam por ali.
A pequena chaleira de latão começou a supitar na cozinha. Lentamente, com os passos de quem muito já caminhou na vida, Maria Lúcia se dirigiu ao fogão. O radinho de pilha mal sintonizado emitia notas tristes de um samba antigo pelas paredes fracamente iluminadas. De volta ao quarto, já com uma xícara de chá à mão, Maria Lúcia precisou apertar os olhinhos miúdos contra os óculos para enxergar o velho Almiro na escuridão.
Na cobertura luxuosa, a vista era única. As largas janelas distribuídas aleatoriamente davam recortes diversos das luzes da cidade, que começavam a se acender. O local era decorado de maneira magnífica; quadros multicoloridos, alguns bustos espalhados em locais bem visíveis, artefatos valiosos pendurados aqui e ali, e uma grande lareira no centro da sala. Contemplando as profundezas do fogo morno, doutor Elizeu parecia se perder em pensamentos.
Almiro tossiu com certa dificuldade e tomou mais um gole do chá quente. A bebida queimava em sua garganta e aquecia seu peito ofegante. Seus olhos brilhavam no escuro, lacrimejantes. Maria Lúcia segurou sua mão livre, e assim permaneceram por algum tempo no escuro. Ela insistiu para que ele tomasse mais um pouco do chá, mas ele apenas balançou a cabeça e suspirou. Recostou-se mais confortavelmente na cama puída por traças e tentou sorrir. Ela retribuiu, meio a contragosto. E permaneceram.
Doutor Elizeu levantou-se da poltrona acolchoada e se dirigiu para a grande sacada formidavelmente iluminada por um grande lustre de cristal. Cruzou os braços a frente do roupão bordado pelo melhor alfaiate de um pequeno país europeu que visitara em uma de suas muitas viagens. Do alto do Colliseum, podia ver as veias pulsantes da cidade. Um vento agradável batia em sua face enrugada. Mesmo ali, do alto de suas conquistas, seu semblante permanecia sério. Dizem que o primeiro homem a escalar o Everest foi o primeiro a se sentir plenamente realizado. Ali estava doutor Elizeu, do alto de seu Everest, tentando entender.
Almiro sentia-se vivo como nunca. A morte lhe batia à porta, mas apesar disso, não tinha medo. A mão quente de Maria Lúcia apertava seus dedos, e naquele breu Almiro podia sentir cada molécula de seu corpo pulsando, vibrando. Ao seu lado, até o fim, Maria Lúcia era seu maior tesouro. Recordações inundavam suas retinas, a jornada fora difícil, mas afinal, recompensante. Levou suas mãos ao rosto de Maria Lúcia e reconheceu cada centímetro, pela última vez. Ela colocou suas mãos acima das dele e apertou-as levemente. Sorriram no escuro.
Com uma última olhada em volta, doutor Elizeu voltou à poltrona. Tomou um grande gole de seu uísque escocês favorito e pegou o pequeno revólver prateado da mesinha ao lado. Médico renomado, político de sucesso, magnata dos negócios. A carreira meteórica possuía inúmeras referências. Filho único de pais falecidos, sem mulher, sem família. Essa ausência afetiva certamente contribuíra para o seu empenho em outras áreas, e em seu aspecto sisudo e distante. Não era infeliz. Mas não saberia explicar o que era felicidade. Seu Everest parecia grandioso, mas era apenas uma montanha. Sem derramar sequer uma lágrima, puxou o gatilho. O estrondo foi altíssimo, mas nos andares abaixo só ouvia-se sons de televisões modernas e o barulho dos carros possantes que passavam pelas ruas.
Almiro fechou os olhos pela última vez. Ainda sorria. Maria Lúcia deitou-se ao seu lado, rangendo as molas puídas da cama. Encarou o vulto de seu marido, quase oculto pelas sombras.
- Obrigada por tudo, meu velho.
Lá fora, o lampião se apagou.




sexta-feira, 21 de maio de 2010

Separação

Chega em casa esbaforida, abrindo a porta com estrondo. Mal começara a chover, mas os trovões prometiam um aguaceiro de arrebentar com qualquer chapinha - principalmente em um cabelo tão crespo como o dela. Afonso já estava lá.
- Que trovões, hein? Vai cair um aguaceiro de acabar com qualquer chapinha.
- O que você faz aqui tão cedo?
- Ora, a casa também é minha.
- Não, Afonso.
Depois de sete anos de namoro, seguidos por três de noivado, estavam se separando. Ele, 35. Ela, 37. Conheceram-se numa dessas confraternizações do bairro. Classe média, pagodes animados. Amor ao décimo chope.
- O que é isso, Carlinha...
- Não me chama de Carlinha! Afonso, você disse que viria à tarde!
- Tive uma folga no trabalho. Nada demais. Quis vir mais cedo para não nos encontrarmos.
A voz dele saiu seca, decidida. Sempre fora assim nos momentos extremos. Nunca fora um homem sentimental. O pedido de noivado, inclusive, viera depois de uma vitória do Vasco em cima do Cruzeiro, sem maiores cerimônias. O máximo que se permitiu fora parar de mastigar o torresmo enquanto aguardava a resposta.
- Certo, Afonso.
- E você? Por que em casa tão cedo?
- Você sabe... tive um imprevisto com o carro.
- Tudo bem, Carlinha...
Ficaram em silêncio. Aquele silêncio incômodo dos estranhos de elevadores. Afonso continuou empacotando suas coisas, melancolicamente. Carla, conhecida no salão da Gorete como 'manteiguinha derretida', se aproximou, prestativa.
- Você quer ajuda?
- Não precisa, Carlinha. Além do mais, falta pouco.
- Deixa disso, Afonsinho.
Um pequeno embrulho caiu da caixa. Um retrato dos dois durante um final de semana em Angra. Houve um momento de hesitação, em que os dois pareciam se transportar para aqueles dois dias ensolarados tão distantes. Afonso chegou a dar uma escarrada, num claro sinal de emoção. Um trovão despertou o antigo casal do devaneio repentino. Se encararam, visivelmente constrangidos. Afonso tentou argumentar:
- Carlinha. Veja bem...
- Não, Afonso.
- Mas..
- Afonso, você sabe muito bem que acabou. Não adianta mais.
- Carlinha..
- Vai embora Afonso.
Sua voz era seca, decidida. Afonso percebeu então que não havia volta. Pela primeira vez desde que seu pequeno cãozinho Tuca fora atropelado seus olhos ficaram marejados. Saiu porta afora, enfim derrotado.
Não era um homem sentimental, mas, diabos, a vida tem dessas coisas mesmo.


Um Recomeço.

Essa é a décima quinta vez que eu abro um blog.
Como nas outras, não sei se vai dar certo.
Não existe intuito maior por trás deste blog do que o de escrever. Sejam contos, sejam críticas, sejam casualidades. Não pretendo desvendar o mundo nem mesmo elaborar um diagnóstico.
Simplesmente vou deixar o barco rolar.
Até eu ficar de saco cheio.
Ou não.


Seja bem vindo à esta bagaça.