Pensou nos tempos remotos, quando ainda era um feto dentro de dona Valquíria. Gostava dali, talvez o único lugar em que fora realmente feliz. Ali era quente, confortável. Estava em casa.
Piscou os olhos e viu o seu Romeu o pegando no colo. O primeiro contato com o pai, ainda com o vasto bigode. Quando seus olhos de cachorro velho encontraram o olhar de quem anseia pela vida do porvir, não conteve as lágrimas. Chorou, fazendo coro aos berros do pequeno bebê.
Depois se viu sentado, com o cabelo todo penteado para trás. Dona Valquíria terminava de colocar um par de pequenos tênis em seu pézinho inquieto. A mochila já esperava por ele encostado na pequena mesinha do centro da sala do apartamento antigo. Aquela que seria sua companheira por tantos anos seguintes no longo caminho do aprendizado. O uniforme branco parecia reluzir, mal continha a excitação de seu primeiro dia de aula. Dona Valquíria lhe deu um de seus calorosos beijos - e então se deu conta do quanto sentia falta deles - e abriu a porta.
Seu Romeu segurava firme em sua cinturinha, enquanto o incentivava a continuar pedalando. O medo reverberava em seu coração como poucas vezes na vida, mas a segurança que seu pai lhe dava o enchia de forças para continuar pedalando. Quando o vento começou a bater mais forte em seu rosto, pôde sentir a liberdade pela primeira vez. Pura, casta. Olhou para o lado, mas Seu Romeu já ficara para trás. Estava pedalando sozinho pela primeira vez.
Letícia o conduzia para fora da festa. Seus cabelos ondulavam como serpentes à sua frente. Ele a seguia, hipnotizado. Quando chegaram a um salão parcialmente vazio, exceto por alguns casais. Ela se virou e o encarou, como poucas vezes fora encarado na vida. Ele pôde sentir o frio na barriga de quem despenca por uma montanha russa a toda velocidade. Beijaram-se.
O último da fila era ele. Vinha em passos lentos, ouvindo os aplausos da multidão. Procurou dona Valquíria e seu Romeu através dos flashes de luz, mas era impossível. Subiu no palco ao ser anunciado e pegou o diploma das mãos do reitor. Ouviu um desejo de boa sorte e se juntou aos demais colegas. Jogaram os chapéus pro alto, com gritos de triunfo.
No velório, todos choravam. A notícia do enfarto fora tão repentina quanto inesperada. O velho Romeu, homem tão forte, enfim derrotado. No caixão, parecia uma frágil réplica de um homem de faces rosadas e bigodes ralos. Não conseguiu mais encarar aquela visão tão melancólica, e fechou os olhos.
Estavam nus sob as cobertas. Riam de uma piada boba, um acaso qualquer, riam de si mesmos. Ele passou a mão em seu rosto enquanto ela tocava com a ponta dos dedos a ponta de seu queixo mal barbeado. Sem pensar duas vezes, a beijou longamente e fez o pedido de casamento. Continuaram rindo um do outro.
Ela bateu a porta, com estrondo. O apartamento agora parecia vazio e sem vida. Não entendia por que as coisas tinham que acabar daquele jeito, tão pelo avesso. Levou as mãos aos cabelos, já sentia as entradas se tornando cada vez mais evidentes. Puxou um cigarro do paletó e ficou observando da janela um táxi se aproximar e a levar embora de sua vida para sempre.
Ele estava meia hora atrasado para a palestra. Girou a chave na maçaneta e ouviu o telefone tocar lá de dentro. Era do hospital. Dona Valquíria sentira uma pontada fazendo o café da manhã e desmaiou. Desmarcou a palestra, arrumou rapidamente suas coisas e partiu para o aeroporto.
O avião deu mais uma forte sacudida. Havia uma histeria no ar. Aeromoças tentavam acudir os mais desesperados. Ele abriu os olhos, finalmente. Sentiu sua vida pulsando mais forte do que nunca. Pensou em todos aqueles que amava e que amou na vida, pensou em seus antepassados, em sua jornada.
Pensou em Dona Valquíria. Então percebeu que próximo do fim, voltamos inevitavelmente ao começo de tudo. Descobrimos nossa humanidade e nossos anseios mais profundos justamente quando estamos a beira do abismo. Ali estava sua essência, seus motivos. O Universo fazia sentido, as respostas estavam bem a sua frente. Então o avião estremeceu.
Meia hora depois, as rodas tocaram o chão. O avião, ileso após a turbulência, repousou suas potentes turbinas.
E ele, sentindo-se vivo, pensou na mãe. Estava, enfim, voltando para casa.
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Música Em Prosa será uma sessão do blog, na qual vou utilizar músicas como temas para os contos.
Esse texto foi baseado na música Wheels, da banda Foo Fighters.
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