sexta-feira, 21 de maio de 2010

Separação

Chega em casa esbaforida, abrindo a porta com estrondo. Mal começara a chover, mas os trovões prometiam um aguaceiro de arrebentar com qualquer chapinha - principalmente em um cabelo tão crespo como o dela. Afonso já estava lá.
- Que trovões, hein? Vai cair um aguaceiro de acabar com qualquer chapinha.
- O que você faz aqui tão cedo?
- Ora, a casa também é minha.
- Não, Afonso.
Depois de sete anos de namoro, seguidos por três de noivado, estavam se separando. Ele, 35. Ela, 37. Conheceram-se numa dessas confraternizações do bairro. Classe média, pagodes animados. Amor ao décimo chope.
- O que é isso, Carlinha...
- Não me chama de Carlinha! Afonso, você disse que viria à tarde!
- Tive uma folga no trabalho. Nada demais. Quis vir mais cedo para não nos encontrarmos.
A voz dele saiu seca, decidida. Sempre fora assim nos momentos extremos. Nunca fora um homem sentimental. O pedido de noivado, inclusive, viera depois de uma vitória do Vasco em cima do Cruzeiro, sem maiores cerimônias. O máximo que se permitiu fora parar de mastigar o torresmo enquanto aguardava a resposta.
- Certo, Afonso.
- E você? Por que em casa tão cedo?
- Você sabe... tive um imprevisto com o carro.
- Tudo bem, Carlinha...
Ficaram em silêncio. Aquele silêncio incômodo dos estranhos de elevadores. Afonso continuou empacotando suas coisas, melancolicamente. Carla, conhecida no salão da Gorete como 'manteiguinha derretida', se aproximou, prestativa.
- Você quer ajuda?
- Não precisa, Carlinha. Além do mais, falta pouco.
- Deixa disso, Afonsinho.
Um pequeno embrulho caiu da caixa. Um retrato dos dois durante um final de semana em Angra. Houve um momento de hesitação, em que os dois pareciam se transportar para aqueles dois dias ensolarados tão distantes. Afonso chegou a dar uma escarrada, num claro sinal de emoção. Um trovão despertou o antigo casal do devaneio repentino. Se encararam, visivelmente constrangidos. Afonso tentou argumentar:
- Carlinha. Veja bem...
- Não, Afonso.
- Mas..
- Afonso, você sabe muito bem que acabou. Não adianta mais.
- Carlinha..
- Vai embora Afonso.
Sua voz era seca, decidida. Afonso percebeu então que não havia volta. Pela primeira vez desde que seu pequeno cãozinho Tuca fora atropelado seus olhos ficaram marejados. Saiu porta afora, enfim derrotado.
Não era um homem sentimental, mas, diabos, a vida tem dessas coisas mesmo.


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