sábado, 22 de maio de 2010

Ao Homem Que Tinha Tudo.

A casinha rústica na beira da estrada era iluminada por um pequeno lampião empoeirado. A terra vermelha em volta mostrava que aquele era um dos poucos lugares em que as garras da civilização não haviam cravado o progresso. O vento rangia tábuas ocasionalmente soltas, e assobiava forte nas janelas maltrapilhas do casebre.
O grandioso edifício Colliseum produzia um efeito magnífico recortado contra o pôr-do-sol da metrópole. Seu aspecto colossal fica ainda mais evidente com os raios solares refletindo as escadarias prateadas e o marfim refinado das colunas verticais. No meio do saguão, o barulho da água que saía do chafariz dourado garantia a tranquilidade dos privilegiados que passavam por ali.
A pequena chaleira de latão começou a supitar na cozinha. Lentamente, com os passos de quem muito já caminhou na vida, Maria Lúcia se dirigiu ao fogão. O radinho de pilha mal sintonizado emitia notas tristes de um samba antigo pelas paredes fracamente iluminadas. De volta ao quarto, já com uma xícara de chá à mão, Maria Lúcia precisou apertar os olhinhos miúdos contra os óculos para enxergar o velho Almiro na escuridão.
Na cobertura luxuosa, a vista era única. As largas janelas distribuídas aleatoriamente davam recortes diversos das luzes da cidade, que começavam a se acender. O local era decorado de maneira magnífica; quadros multicoloridos, alguns bustos espalhados em locais bem visíveis, artefatos valiosos pendurados aqui e ali, e uma grande lareira no centro da sala. Contemplando as profundezas do fogo morno, doutor Elizeu parecia se perder em pensamentos.
Almiro tossiu com certa dificuldade e tomou mais um gole do chá quente. A bebida queimava em sua garganta e aquecia seu peito ofegante. Seus olhos brilhavam no escuro, lacrimejantes. Maria Lúcia segurou sua mão livre, e assim permaneceram por algum tempo no escuro. Ela insistiu para que ele tomasse mais um pouco do chá, mas ele apenas balançou a cabeça e suspirou. Recostou-se mais confortavelmente na cama puída por traças e tentou sorrir. Ela retribuiu, meio a contragosto. E permaneceram.
Doutor Elizeu levantou-se da poltrona acolchoada e se dirigiu para a grande sacada formidavelmente iluminada por um grande lustre de cristal. Cruzou os braços a frente do roupão bordado pelo melhor alfaiate de um pequeno país europeu que visitara em uma de suas muitas viagens. Do alto do Colliseum, podia ver as veias pulsantes da cidade. Um vento agradável batia em sua face enrugada. Mesmo ali, do alto de suas conquistas, seu semblante permanecia sério. Dizem que o primeiro homem a escalar o Everest foi o primeiro a se sentir plenamente realizado. Ali estava doutor Elizeu, do alto de seu Everest, tentando entender.
Almiro sentia-se vivo como nunca. A morte lhe batia à porta, mas apesar disso, não tinha medo. A mão quente de Maria Lúcia apertava seus dedos, e naquele breu Almiro podia sentir cada molécula de seu corpo pulsando, vibrando. Ao seu lado, até o fim, Maria Lúcia era seu maior tesouro. Recordações inundavam suas retinas, a jornada fora difícil, mas afinal, recompensante. Levou suas mãos ao rosto de Maria Lúcia e reconheceu cada centímetro, pela última vez. Ela colocou suas mãos acima das dele e apertou-as levemente. Sorriram no escuro.
Com uma última olhada em volta, doutor Elizeu voltou à poltrona. Tomou um grande gole de seu uísque escocês favorito e pegou o pequeno revólver prateado da mesinha ao lado. Médico renomado, político de sucesso, magnata dos negócios. A carreira meteórica possuía inúmeras referências. Filho único de pais falecidos, sem mulher, sem família. Essa ausência afetiva certamente contribuíra para o seu empenho em outras áreas, e em seu aspecto sisudo e distante. Não era infeliz. Mas não saberia explicar o que era felicidade. Seu Everest parecia grandioso, mas era apenas uma montanha. Sem derramar sequer uma lágrima, puxou o gatilho. O estrondo foi altíssimo, mas nos andares abaixo só ouvia-se sons de televisões modernas e o barulho dos carros possantes que passavam pelas ruas.
Almiro fechou os olhos pela última vez. Ainda sorria. Maria Lúcia deitou-se ao seu lado, rangendo as molas puídas da cama. Encarou o vulto de seu marido, quase oculto pelas sombras.
- Obrigada por tudo, meu velho.
Lá fora, o lampião se apagou.




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