Teve uma epifania.
O relógio tiquetaqueava pendurado na sala. Na cozinha, a torneira insistia em pingar. E ele, ainda deitado na cama, com os olhos abertos de quem acorda de um sono profundo, encarava o teto como se compreendesse tudo pela primeira vez. Seu coração disparado poderia ser ritmista de alguma escola de samba. Nas veias, era capaz de sentir o fluxo sanguíneo acelerado, percorrendo braços, pernas, tronco, pulmões podres de cigarro, até alcançar a cabeça. E ali em sua cabeça, como se fosse o início da vida como um todo, o cérebro ecoava por toda eternidade aquela descoberta tão fantástica e ao mesmo tempo tão simples. Tudo conectado. Um homem feito com a barba por fazer deitado em uma cama no centro de tudo. Havia compreendido.
Sentou e colocou as mãos unidas no rosto. Quem entrasse no quarto poderia jurar que orava. No escuro da palma de suas mãos, as órbitas dos olhos explodiram em cores. Ficou zonzo. Um pequeno filme borrado passava em sua memória já danificada pelo excesso de uísque da noite anterior. E das últimas décadas. Ali, sentado sozinho acompanhado só de lembranças, conseguiu rever cada adeus, cada beijo apaixonado ou não, cada toque, cada festa, cada fornada de pão de queijo, cada palpitar dos sentidos de toda uma vida.
Em algum lugar lá fora uma ave bateu asas. Em algum lugar do seu espírito algo se quebrou.
A simplicidade da coisa residia em sua complexidade. Ou era o contrário? Cada homem é uma ilha de si mesmo. E a dele estava povoada por mágoas naufragadas e folhas secas. Nenhum tiquetaque do relógio era igual a outro. Cada pingo da torneira era único. Todo segundo que passava o aproximava do último, o derradeiro. Era inevitável. E ali, sentado ele enfim percebeu que era a soma de todos os momentos que já vivera até ali. Abriu os olhos. Mas pela primeira vez enxergava.
Secando uma lágrima solitária, se levantou e foi até o telefone.
Na sala, o relógio tiquetaqueava.
Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac...
Instantes
"Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo"
Autor Desconhecido
quarta-feira, 20 de junho de 2012
quinta-feira, 14 de junho de 2012
Perseguição
Estudando teorias em uma sala de aula abafada, ela me cutuca. Tento prestar atenção em qualquer coisa que Habermas tenha falado lá nos confins da história, mas ela me tira a concentração. Sussurra em meus ouvidos, arranha o meu braço. Tento me desvencilhar, em vão.
Ela insiste, ela persiste, ela se joga no chão.
Peço desculpas ao professor e saio dali meio envergonhado com esse papelão. Mas não adianta, ela me persegue. Ela é irritante.
Será que não percebe?
Ando depressa pra que ela não consiga me acompanhar. Rápida como um raio ela já está ao meu lado, emparelhada, puxando minha blusa, tentando alcançar a minha mão. Orgulhoso, não deixo. Tampo os ouvidos pra ignorar os chamados e subo no primeiro ônibus que passa.
Ela senta ao meu lado, me olha suplicante. Tenta puxar assunto. Viro a cabeça pro lado e ignoro. Ela não se importa, quer minha companhia à todo custo. Embaraça meus cabelos esperando que eu reaja.
Eu não reajo. Reagir é inútil.
Tento enganá-la na hora de descer, mas ela me conhece tão bem. Ela sabe onde moro. Ela me perturba, me incomoda, esgota minha paciência.
Corro pra casa, já quase implorando pra que ela me deixe sozinho. Mas ela não deixa. Ela me grita, faz birra, chama por atenção. Algumas pessoas acham graça no meu desespero em tentar fugir.
Ela me tira do sério.
Em casa, ela bate na porta. Tenta entrar pela janela. O rádio, o inimigo infiltrado, tenta forçá-la pra dentro. Estou cercado. É o fim da linha. Sem opção, aceito-a a contragosto. Mas de braços abertos.
A sua Falta não me deixa em paz.
terça-feira, 12 de junho de 2012
Pra não dizer que não falei das flores.
Quando eu tinha 5 anos, quebrei um par de costelas da minha avó. Ela, mais moleca do que eu, gostava de brincar com seu neto preferido no quintal de casa. Em uma dessas brincadeiras, com o chão molhado de sabão, eu escorreguei. Minha avó, num movimento excepcionalmente rápido para uma senhora de setenta e tantos anos, segurou minha mão e evitou com que eu quebrasse alguns dentes de leite. Porém, a força pra me manter de pé ocasionou em um tombo em que ela fraturou as costas. Nunca me esqueço daquele dia. Desesperado e vendo a dor que ela sentia, comecei a chorar. Ela segurou meu ombro, deu uma risada, um beijo em minha testa e disse: 'Deixa de frescura, meu amor!'.
As flores que comprei me encaram com um ar sereno, risonho. Quase vendo graça na complexidade da situação. Não poderia esperar mais delas, afinal são simples rosas. Eventualmente elas murcharão e perderão o sentido de sua existência. Em um gesto indiferente eu poderia simplesmente jogá-las fora e acabar de uma vez por todas com o ridículo disso tudo. Cortar, literalmente, o mal pela raiz. Mas não. Continuo a guardá-las em meu desejo mudo para que, de alguma fora, esse ato reestabeleça a ordem das coisas. No fundo é apenas uma forma de negar que tudo acabou, ou pior, que nem existiu. Penduradas em seus caules, irradiando uma beleza triste na sala, as flores só fazem rir.
O que é a vida se não uma sucessão de recomeços? O momento é de recolher os cacos e tentar colar, um a um, com cuidado, pra que não fiquem peças fora do lugar. A tarefa não é fácil e exige muita concentração; alguns param embaixo do tapete ou se infiltram em feridas mais profundas. Por falar em feridas, perdi as contas das minhas. Com certeza outras virão, e formarão cicatrizes que acabarão me acompanhando para o resto da vida. Ainda me surpreendo quando, vez ou outra, encontro uma que não fazia ideia de que estava ali, adormecida, esperando o momento certo de voltar a sangrar.
Tudo agora parece meio borrado, fora de foco. Ainda procuro algum detalhe que tenha deixado escapar, a câmera escondida disso tudo. Aí reside a grande questão da verdade: todos a buscam, mas todos relutam em aceitá-la. Eu ainda não a aceitei.
O tempo tem sido um conselheiro formidável. E o trauma tem sido um motivador do cacete. Procuro conforto na ideia de que uma hora isso passa, afinal tenho meus vinte e poucos anos e uma jornada inteira pela frente. Deixar você ir exige de mim um esforço maior do que eu consigo admitir. Ter que virar as costas e trilhar um caminho para longe do seu talvez seja a maior prova de que tudo que eu fiz foi por nós dois. Ora, não é desse amor de que falam os poetas e os filmes piegas de hollywood? Sacrificar a sua própria felicidade em prol do outro, de um bem maior?
Em felicidade não acredito. Acredito que existam momentos em que conseguimos superar os problemas e enfim, nos sentir bem. Livres de amarras, livres das contas do mês ou da posição do Palmeiras no campeonato. E esses momentos, embora passageiros, penetram na memória e ficam. Se instalam lá para sempre, ou até que o Alzheimer os separe.
Se fecho meus olhos ainda vejo seu rosto. Tenho tentado mantê-los abertos, mas vez ou outra não resisto e me entrego. Sinto suas mãos pequenas entrelaçarem os meus dedos gelados e, com um leve aperto, você parece dizer de lugar nenhum: 'Está tudo bem.' Minha habilidade de criar histórias reconstrói todo e cada capítulo, seja numa praia ensolarada, em um quarto confortável ou em um bosque frio. Frases soltas de músicas me atormentam como fantasmas. Minha cabeça já não é mais o lugar seguro que outrora fora.
O gesto de minha avó faz mais sentido agora. Ainda não entendo bem o que é o amor, mas sei que eu abriria mão de algumas costelas pra te manter de pé. Hoje foi particularmente um dia difícil. Encarar essas rosas e todo meu rancor sentados à mesa me dá arrepios. Passar noites em claro pensando em tudo que não foi ou mesmo a solidão de se encontrar em meio à uma multidão de desconhecidos me deixa zonzo. Ser solitário nunca foi um problema pra mim, mas a simples ideia de saber que existe você no mundo me atormenta e me ilumina ao mesmo tempo. Uma pena eu não ter criado um final feliz pra nós dois. Sua falta me preenche por completo, e me traz à tona de uma realidade que difere daquela do meu sonho. Talvez o mais bonito que eu já tenha sonhado. Se tudo foi engano, ilusão, o escambal, não sei dizer. Sei que daqui até o fim dos tempos seremos só eu, minha tristeza, e essas malditas flores sorridentes pelo caminho.
Dizem que o que é verdadeiro nunca se vai. Posso ter tido essa desventura sozinho, criado tudo na ponta do lápis e fantasiado demais. Mas ela foi suficiente verdadeira para mim. E isso, minha cara, é algo que nem você pode me tirar. Na minha história perfeita, ainda estamos juntos. Conversando qualquer bobagem e rindo de qualquer besteira. Nessa ilusão que eu criei, você recebeu minhas rosas.
As rosas que eu nunca mandei.
segunda-feira, 11 de junho de 2012
O Abismo
Abriu os olhos.
Uma névoa fina embaçava sua visão e sussurrava levemente da escuridão. Estava de pé. Estático. Não sabia que lugar era aquele. Seria um sonho? Não se lembrava de ter dormido recentemente. Seu corpo parecia anestesiado, até seus sentidos estavam suprimidos, como se estivesse ausente de si mesmo, assistindo a tudo aquilo através de um véu. Teria morrido? Buscou alguma memória que explicasse aquela situação, mas percebeu que não as tinha. Desconhecia quem era e onde estava.
Ali era calmo.
Nada além de névoa e crepúsculo. Poderia ser noite, não fosse a ausência de estrelas e da lua. Olhou ao redor procurando algum sinal de vida, algum vulto, algum barulho, algum odor que lhe desse uma dica daquilo tudo. Algum propósito. Não encontrou nada. Sentia frio e desejou roupas mais quentes. Quando se deu conta de que não sabia se estava vestido ou não. Sua existência ali transcendia o físico e o temporal. Ele era apenas parte da neblina, assistindo aquilo tudo apenas pela beleza de se ser, imóvel, indolor, livre.
E esperou.
Contemplou aquele cenário por muito tempo. Ou seriam alguns segundos? Não sabia distinguir bem como eram essas definições mundanas naquele lugar. Meses e anos poderiam ter se passado naquele intervalo em que ele ficara fora de contexto, arrancado de si, em uma prisão silenciosa em lugar nenhum. Decidiu procurar respostas. Começou a andar, embora não tivesse pés. E andando por uma década, ou meia hora, naquele espaço escuro e interminável ele finalmente encontrou.
Um Abismo.
A névoa se dispersara revelando um Abismo. Negro. Gigantesco. Intimidante. Dali de cima ele não conseguia ver o final daquele buraco colossal no meio do nada. Não havia como contorná-lo de qualquer lado. O Abismo era o fim e o começo de tudo. Em êxtase, sem conseguir se mover, ficou parado olhando pra baixo. O silêncio era ensurdecedor. Ficou desconcertado, como se tivesse encarando algo indecente, proibido. Começou a sentir arrepios. Suas mãos, que não existiam, tremiam.
Quis chorar.
Sentiu as fraquezas humanas pulsando nas veias. De repente, todo o sentido de sua existência reverberava pelas paredes do Abismo infinito. Seu peito encheu-se de angústia e dor, todo o peso do mundo recaiu em suas costas e seus joelhos cederam na pedra dura e fria. Não compreendia aquela força sobrenatural agindo, puxando-o direto para o centro do nada. E no meio de todo aquele turbilhão de agonia e dúvida, ele viu.
Dois olhos brilhavam.
Olhos que ele conhecia tão bem. O Abismo o observava de volta, com aqueles olhos doces e sorridentes. A escuridão o envolveu como nunca, seu peito explodiu em mil pedaços. Não conseguia continuar encarando aquele olhar tão belo e tão triste. Sentiu lentamente suas forças abandonarem o corpo que não tinha. O Abismo lentamente o consumia por inteiro, destruía suas víceras e versos, queimava seu interior deixando apenas cinzas e pó soltos no ar. Aceitando a condição imposta, decidido a ser o senhor de seu destino, resolveu abraçar a sua sina. Assustado, em um último esforço que lhe esvaiu a mente e o coração, olhou diretamente nos Olhos do Abismo. Sua última súplica silenciosa.
Fechou os olhos.
E pulou.
''E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.''
Friedrich Nietzsche
terça-feira, 5 de junho de 2012
Bobagens e afins
Oi. Tudo certo? Tudo indo bem? Senta aqui, vamos conversar. Não, não vou te tomar muito tempo, é rapidinho. Puxa, por onde começar? São tantas coisas que eu queria te dizer que nem sei por onde... Minha mãe sempre dizia que eu tinha dificuldade pra organizar o raciocínio. Ela dizia que eu tinha um vermezinho na cabeça, que embaralhava o pensamento. Acho que ela tinha razão. Vai ver por isso sempre gostei de escrever. Desde pequeno. Um papel e caneta e pronto, ali estava um menino feliz. Acho que nessa época surgiu o sonho de ser escritor. Vê se pode, escritor! No Brasil. Até flanelinha ganha mais nesse país. Mas o que uma mãe não faz pra ver um filho feliz né? Quer ser escritor meu filho? Que coisa maravilhosa! Agora termina de comer toda a couve do prato ou vai ficar sem sobremesa! E assim durante muito tempo me alimentei de couves, sobremesas e desse sonho bobo. Engraçado como a gente tem sonhos bobos né? Quando se é criança é bom sonhar. Depois a gente cresce e vem o senso do ridículo e a necessidade de ganhar dinheiro e leva tudo da gente. Mas espera, não é disso que eu quero falar. Calma, eu já chego lá. Você tá bem bonita, fez alguma coisa no cabelo? Tá diferente. Sempre gostei de cabelo de mulher. Lembro que quando tinha uns quinze anos me apaixonei pela nuca de uma garota. Dá pra acreditar? Eu me sentava algumas cadeiras atrás dela no colégio. Aí um dia desses, como outro qualquer, ela prendeu o cabelo num coque enquanto anotava equações do quadro negro. Ficaram uns fiozinhos de cabelo caindo na nuca, sabe? Fiozinhos de cabelo na nuca, a ruína de um homem. Paixão instantânea. Nessa época meu fascínio pela escrita andava meio renegado. Mas você me conhece. Essa minha timidez crônica era ainda pior naquela época. Veja você, com medo de encarar uma nuca. E aí veio a ideia de escrever uma carta pra ela. E assim eu fiz. Coloquei no armário de livros dela, sem assinatura, claro. O plano perfeito. Puxa, como eu era brega. Mas, veja como são as coisas. Ela acabou gostando. Achou fofo, até. Sempre tive pavor dessa palavra: fofo. Parece que a pessoa não tem adjetivos pra descrever quão grande foi seu papel de ridículo e acaba te presenteando com um 'fofo'. Não há nada que um tímido tenha mais medo do que bancar o ridículo. Não é necessário dizer que eu frequentemente o fazia. Tá rindo, né? Não tem nada de engraçado nisso. Tá, talvez tenha um pouco. Claro que não deu certo com a menina dos fios na nuca. Veja só, meninas acham 'fofo' que lhe mandem cartas. Faz bem pro ego, ou coisa assim. Mas há muito eu aprendi que os 'fofos' não tem espaço na hora que o jogo é pra valer. Pelo menos recuperei meu gosto por escrever, e isso meio que foi o combustível da minha vida para os anos seguintes. Pensei até em fazer Jornalismo, por que não? Felizmente não o fiz. Acho que não teria estômago pra uma profissão dessas. De vez em quando ainda penso nisso. Sou do tipo que remói a dúvida do que poderia ter sido. Cada decisão que a gente toma na vida, por menor que seja, altera o curso das coisas. Cada ação repercute no nosso trajeto nesse mundo. Inclusive quando não agimos. Será que eu fiz certo ao não cursar Jornalismo? A menina dos fios na nuca era a mulher da minha vida e eu deixei escapar? Tomar chá de manhã foi a melhor opção? Tá me entendendo? Essa vida é muito incerta. Sempre tive dificuldades em tomar escolhas. E se eu virar à direita no lugar errado e nunca mais encontrar meu caminho de volta? Não me leve a mal, não é que eu não saiba o que eu quero. Mas a ideia de um mundo de possibilidades é, no mínimo, assustadora. Seria muito mais fácil se tudo fosse como num jogo de War. Você nasce, recebe seus objetivos pra ganhar a partida, e joga os dados. Deixando tudo nas mãos do acaso e da sua habilidade de combater exércitos inimigos. Mas que não me venham com a carta de dominar um território à sua escolha. Acho que não conseguiria decidir qual deles e aí, olha lá, os exércitos verdes tão me atacando no Sudão e lá se foi minha estratégia. Falando em escolhas preciso de ajuda pra decidir pra onde ir nessas férias. Mas isso é assunto pra outro dia. Aceita uma balinha? É de café. Incrível como ando viciado em café. Sempre detestei, até o cheiro. Depois de quatro anos e alguns meses de faculdade bem mal dormidos você acaba sem opção. Hoje, olhando pra trás, vejo como sou uma pessoa diferente da que eu era. Talvez a timidez e a aversão por couves ainda continuem firmes e fortes, mas acho que acabei criando uma nova casca pro meu casulo. Toda mudança é válida, desde que seja pra melhor. Mudanças... por quantas já devo ter passado. E quem não passa? Perdi até as contas. Ainda lembro do dia em que te conheci. E aqui estamos, nós dois, sentados nesse corredor imundo, tão diferentes quanto poderíamos imaginar. História engraçada, a nossa. Digo, quais eram as probabilidades certo? Não acredito nessas bobagens de destino, mas as vezes acho que o Universo gosta de aprontar das suas. Lembro que te achei uma chata à primeira vista. O que? Não me olha assim, aposto que você pensou o mesmo de mim. Mas você logo tratou de apagar essa impressão. Algumas semanas depois e eu não te tirava da cabeça. E olha que nem precisei ver sua nuca. Logo eu, que achava que se apaixonar era falha de caráter. Aí vem você, sabe-se lá de onde, e muda toda uma vida de convicções construídas na base de decepções e erros. Sinto falta de quando você, no meio de uma conversa séria, simplesmente deixava escapar uma careta. Uma careta! Tão espontânea e natural, quase como uma criança. Parando pra pensar, sinto falta de tanta coisa. Bobagens, principalmente. Depois, com a mesma naturalidade que você entrou em minha vida, você simplesmente saiu dela. Sem maiores dramas como nos filmes ou nas novelas. Sem nenhum ato heróico que coroasse aquilo tudo. Você simplesmente acordou uma manhã e mudou de estação de rádio. E é assim. Abrindo mão de sonhos pelo caminho mas sem perder a habilidade de sonhar. Sonhos bobos, que sejam. Ora, e quem é que vai julgar isso? Talvez se eu não tivesse desistido de tantas coisas nunca teríamos nos encontrado, quem sabe? Talvez se você não tivesse desistido de mim, o que poderia ter sido? E agora, vendo você aqui na minha frente, só consigo pensar em um bêbado montando um quebra-cabeças. Tudo se encaixa, mas nenhuma imagem é formada. Aí ele solta um palavrão e bagunça todas as peças de novo. Acha que tô exagerando? O que é isso... É que, sei lá, acaba ficando muita coisa suprimida. Lá vou eu me emocionar de novo. Acho que é esse remédio que ando tomando, nunca se sabe. Esse é o seu sinal? Ah, certo. Tudo bem, a gente se vê por aí né? Foi bom te encontrar, ver que anda tudo bem. Se cuida hein? Até.
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