segunda-feira, 11 de junho de 2012
O Abismo
Abriu os olhos.
Uma névoa fina embaçava sua visão e sussurrava levemente da escuridão. Estava de pé. Estático. Não sabia que lugar era aquele. Seria um sonho? Não se lembrava de ter dormido recentemente. Seu corpo parecia anestesiado, até seus sentidos estavam suprimidos, como se estivesse ausente de si mesmo, assistindo a tudo aquilo através de um véu. Teria morrido? Buscou alguma memória que explicasse aquela situação, mas percebeu que não as tinha. Desconhecia quem era e onde estava.
Ali era calmo.
Nada além de névoa e crepúsculo. Poderia ser noite, não fosse a ausência de estrelas e da lua. Olhou ao redor procurando algum sinal de vida, algum vulto, algum barulho, algum odor que lhe desse uma dica daquilo tudo. Algum propósito. Não encontrou nada. Sentia frio e desejou roupas mais quentes. Quando se deu conta de que não sabia se estava vestido ou não. Sua existência ali transcendia o físico e o temporal. Ele era apenas parte da neblina, assistindo aquilo tudo apenas pela beleza de se ser, imóvel, indolor, livre.
E esperou.
Contemplou aquele cenário por muito tempo. Ou seriam alguns segundos? Não sabia distinguir bem como eram essas definições mundanas naquele lugar. Meses e anos poderiam ter se passado naquele intervalo em que ele ficara fora de contexto, arrancado de si, em uma prisão silenciosa em lugar nenhum. Decidiu procurar respostas. Começou a andar, embora não tivesse pés. E andando por uma década, ou meia hora, naquele espaço escuro e interminável ele finalmente encontrou.
Um Abismo.
A névoa se dispersara revelando um Abismo. Negro. Gigantesco. Intimidante. Dali de cima ele não conseguia ver o final daquele buraco colossal no meio do nada. Não havia como contorná-lo de qualquer lado. O Abismo era o fim e o começo de tudo. Em êxtase, sem conseguir se mover, ficou parado olhando pra baixo. O silêncio era ensurdecedor. Ficou desconcertado, como se tivesse encarando algo indecente, proibido. Começou a sentir arrepios. Suas mãos, que não existiam, tremiam.
Quis chorar.
Sentiu as fraquezas humanas pulsando nas veias. De repente, todo o sentido de sua existência reverberava pelas paredes do Abismo infinito. Seu peito encheu-se de angústia e dor, todo o peso do mundo recaiu em suas costas e seus joelhos cederam na pedra dura e fria. Não compreendia aquela força sobrenatural agindo, puxando-o direto para o centro do nada. E no meio de todo aquele turbilhão de agonia e dúvida, ele viu.
Dois olhos brilhavam.
Olhos que ele conhecia tão bem. O Abismo o observava de volta, com aqueles olhos doces e sorridentes. A escuridão o envolveu como nunca, seu peito explodiu em mil pedaços. Não conseguia continuar encarando aquele olhar tão belo e tão triste. Sentiu lentamente suas forças abandonarem o corpo que não tinha. O Abismo lentamente o consumia por inteiro, destruía suas víceras e versos, queimava seu interior deixando apenas cinzas e pó soltos no ar. Aceitando a condição imposta, decidido a ser o senhor de seu destino, resolveu abraçar a sua sina. Assustado, em um último esforço que lhe esvaiu a mente e o coração, olhou diretamente nos Olhos do Abismo. Sua última súplica silenciosa.
Fechou os olhos.
E pulou.
''E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.''
Friedrich Nietzsche
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