quarta-feira, 20 de junho de 2012

Instante

Teve uma epifania.


O relógio tiquetaqueava pendurado na sala. Na cozinha, a torneira insistia em pingar. E ele, ainda deitado na cama, com os olhos abertos de quem acorda de um sono profundo, encarava o teto como se compreendesse tudo pela primeira vez. Seu coração disparado poderia ser ritmista de alguma escola de samba. Nas veias, era capaz de sentir o fluxo sanguíneo acelerado, percorrendo braços, pernas, tronco, pulmões podres de cigarro, até alcançar a cabeça. E ali em sua cabeça, como se fosse o início da vida como um todo, o cérebro ecoava por toda eternidade aquela descoberta tão fantástica e ao mesmo tempo tão simples. Tudo conectado. Um homem feito com a barba por fazer deitado em uma cama no centro de tudo. Havia compreendido.


Sentou e colocou as mãos unidas no rosto. Quem entrasse no quarto poderia jurar que orava. No escuro da palma de suas mãos, as órbitas dos olhos explodiram em cores. Ficou zonzo. Um pequeno filme borrado passava em sua memória já danificada pelo excesso de uísque da noite anterior. E das últimas décadas. Ali, sentado sozinho acompanhado só de lembranças, conseguiu rever cada adeus, cada beijo apaixonado ou não, cada toque, cada festa, cada fornada de pão de queijo, cada palpitar dos sentidos de toda uma vida. 
Em algum lugar lá fora uma ave bateu asas. Em algum lugar do seu espírito algo se quebrou.


A simplicidade da coisa residia em sua complexidade. Ou era o contrário? Cada homem é uma ilha de si mesmo. E a dele estava povoada por mágoas naufragadas e folhas secas. Nenhum tiquetaque do relógio era igual a outro. Cada pingo da torneira era único. Todo segundo que passava o aproximava do último, o derradeiro. Era inevitável. E ali, sentado ele enfim percebeu que era a soma de todos os momentos que já vivera até ali. Abriu os olhos. Mas pela primeira vez enxergava. 


Secando uma lágrima solitária, se levantou e foi até o telefone. 


Na sala, o relógio tiquetaqueava. 


Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac...


                           




                               Instantes

"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. 

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata 
e profundamente cada minuto de sua vida; 
claro que tive momentos de alegria. 
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente 
de ter bons momentos. 

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; 
não percam o agora. 
Eu era um daqueles que nunca ia 
a parte alguma sem um termômetro, 
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, 
se voltasse a viver, viajaria mais leve. 

Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo" 




Autor Desconhecido

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