terça-feira, 12 de junho de 2012
Pra não dizer que não falei das flores.
Quando eu tinha 5 anos, quebrei um par de costelas da minha avó. Ela, mais moleca do que eu, gostava de brincar com seu neto preferido no quintal de casa. Em uma dessas brincadeiras, com o chão molhado de sabão, eu escorreguei. Minha avó, num movimento excepcionalmente rápido para uma senhora de setenta e tantos anos, segurou minha mão e evitou com que eu quebrasse alguns dentes de leite. Porém, a força pra me manter de pé ocasionou em um tombo em que ela fraturou as costas. Nunca me esqueço daquele dia. Desesperado e vendo a dor que ela sentia, comecei a chorar. Ela segurou meu ombro, deu uma risada, um beijo em minha testa e disse: 'Deixa de frescura, meu amor!'.
As flores que comprei me encaram com um ar sereno, risonho. Quase vendo graça na complexidade da situação. Não poderia esperar mais delas, afinal são simples rosas. Eventualmente elas murcharão e perderão o sentido de sua existência. Em um gesto indiferente eu poderia simplesmente jogá-las fora e acabar de uma vez por todas com o ridículo disso tudo. Cortar, literalmente, o mal pela raiz. Mas não. Continuo a guardá-las em meu desejo mudo para que, de alguma fora, esse ato reestabeleça a ordem das coisas. No fundo é apenas uma forma de negar que tudo acabou, ou pior, que nem existiu. Penduradas em seus caules, irradiando uma beleza triste na sala, as flores só fazem rir.
O que é a vida se não uma sucessão de recomeços? O momento é de recolher os cacos e tentar colar, um a um, com cuidado, pra que não fiquem peças fora do lugar. A tarefa não é fácil e exige muita concentração; alguns param embaixo do tapete ou se infiltram em feridas mais profundas. Por falar em feridas, perdi as contas das minhas. Com certeza outras virão, e formarão cicatrizes que acabarão me acompanhando para o resto da vida. Ainda me surpreendo quando, vez ou outra, encontro uma que não fazia ideia de que estava ali, adormecida, esperando o momento certo de voltar a sangrar.
Tudo agora parece meio borrado, fora de foco. Ainda procuro algum detalhe que tenha deixado escapar, a câmera escondida disso tudo. Aí reside a grande questão da verdade: todos a buscam, mas todos relutam em aceitá-la. Eu ainda não a aceitei.
O tempo tem sido um conselheiro formidável. E o trauma tem sido um motivador do cacete. Procuro conforto na ideia de que uma hora isso passa, afinal tenho meus vinte e poucos anos e uma jornada inteira pela frente. Deixar você ir exige de mim um esforço maior do que eu consigo admitir. Ter que virar as costas e trilhar um caminho para longe do seu talvez seja a maior prova de que tudo que eu fiz foi por nós dois. Ora, não é desse amor de que falam os poetas e os filmes piegas de hollywood? Sacrificar a sua própria felicidade em prol do outro, de um bem maior?
Em felicidade não acredito. Acredito que existam momentos em que conseguimos superar os problemas e enfim, nos sentir bem. Livres de amarras, livres das contas do mês ou da posição do Palmeiras no campeonato. E esses momentos, embora passageiros, penetram na memória e ficam. Se instalam lá para sempre, ou até que o Alzheimer os separe.
Se fecho meus olhos ainda vejo seu rosto. Tenho tentado mantê-los abertos, mas vez ou outra não resisto e me entrego. Sinto suas mãos pequenas entrelaçarem os meus dedos gelados e, com um leve aperto, você parece dizer de lugar nenhum: 'Está tudo bem.' Minha habilidade de criar histórias reconstrói todo e cada capítulo, seja numa praia ensolarada, em um quarto confortável ou em um bosque frio. Frases soltas de músicas me atormentam como fantasmas. Minha cabeça já não é mais o lugar seguro que outrora fora.
O gesto de minha avó faz mais sentido agora. Ainda não entendo bem o que é o amor, mas sei que eu abriria mão de algumas costelas pra te manter de pé. Hoje foi particularmente um dia difícil. Encarar essas rosas e todo meu rancor sentados à mesa me dá arrepios. Passar noites em claro pensando em tudo que não foi ou mesmo a solidão de se encontrar em meio à uma multidão de desconhecidos me deixa zonzo. Ser solitário nunca foi um problema pra mim, mas a simples ideia de saber que existe você no mundo me atormenta e me ilumina ao mesmo tempo. Uma pena eu não ter criado um final feliz pra nós dois. Sua falta me preenche por completo, e me traz à tona de uma realidade que difere daquela do meu sonho. Talvez o mais bonito que eu já tenha sonhado. Se tudo foi engano, ilusão, o escambal, não sei dizer. Sei que daqui até o fim dos tempos seremos só eu, minha tristeza, e essas malditas flores sorridentes pelo caminho.
Dizem que o que é verdadeiro nunca se vai. Posso ter tido essa desventura sozinho, criado tudo na ponta do lápis e fantasiado demais. Mas ela foi suficiente verdadeira para mim. E isso, minha cara, é algo que nem você pode me tirar. Na minha história perfeita, ainda estamos juntos. Conversando qualquer bobagem e rindo de qualquer besteira. Nessa ilusão que eu criei, você recebeu minhas rosas.
As rosas que eu nunca mandei.
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