segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

A História mais antiga do Mundo

É a história mais antiga do mundo. Mas boas histórias merecem ser contadas mais de uma vez, de formas diferentes. Você está parado olhando o céu que explode em cores, quando se dá conta de que é fim de ano. E aí você coloca tudo que viveu na balança e avalia como foram os últimos 365 dias. 

Dizer que 'mais um ano' se passou é um erro. Na verdade nenhum ano é igual ao outro, e nem deveria ser. Cada ano possui sua marca, mesmo que ínfima, na imensidão do tempo. 2012 também deixou sua marca, 2012 foi um ano mágico.

E o lado bom da mágica é que ela pode vir de todos os lugares. Nunca se sabe de onde virá o próximo milagre. Por isso, se eu pudesse te dar um conselho, um único conselho nesse último dia de 2012, eu diria que você precisa manter mente, alma, e coração abertos a todas as possibilidades. Seu desejo mais secreto não é impossível de se realizar. Ele só pede de você, um pouco de fé, um tanto de paciência e muito de perseverança.

A vida costuma tomar caminhos que muitas vezes não entendemos. São curvas e desvios ao longo do percurso  que constantemente podem nos afastar de nossos objetivos. Se você conseguir que seu coração te guie, pode ser que a estrada demore a fazer sentido. Mas eu posso garantir que você nunca, nunca, estará perdido.

Que em 2013 você volte a acreditar. E que a esperança floresça dentro de cada um de nós, nos movendo sempre adiante. Que a dor da perda não supere a alegria de se estar entre amigos e família. Que o amor esteja presente, pra nos lembrar do que realmente é importante e do que é apenas poeira no espaço. Que a sorte esteja ao seu lado, mas não se iluda; não deixe tudo nas mãos do destino e espere pelo melhor. Faça seu melhor. Se possível, todos os dias. Lute, vibre, se importe. Fale. Ame. Chore.

Talvez tenhamos nos distraído desejando demais as coisas, e esquecido de vivê-las em toda sua intensidade e emoção. A rotina massacra e castiga. Mas é fundamental que encontremos, no fundo de nossa existência, a integridade e o altruísmo para perseguirmos nossos sonhos da maneira correta, não passando por cima de ninguém. Fazendo o certo ao invés do fácil, enfim.

E que o último segundo de 2012 nos faça repensar, pelo menos por um breve momento, da razão de tudo isso. E que, quando você estiver olhando o céu explodindo em cores, você se lembre que essa é a história mais antiga do mundo. E talvez lá no fundo você comece a entender que é preciso se viver o fim do ano todos os dias. Para sempre.
De repente o futuro é agora. E num piscar de olhos, o futuro foi ontem. E essa é a sua vida.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Natalino

Chega um determinado período do ano, localizado entre o fim de outubro e o começo de novembro, em que as pessoas são tomadas por um sentimento peculiar e ancestral denominado 'Espírito Natalino'. Eu disse sentimento? Não, acho que filosofia seria o termo mais adequado.

Não importa a idade, a orientação sexual, se é flamenguista ou vascaíno, ateu-protestante-praticante-apóstolico romano. Nada disso. A filosofia do Espírito Natalino acomete a todos. Uma epidemia de grandes proporções, que invade as casas, apartamentos, pontes e almas, se infiltrando pela janela na forma de uma canção da Simone ou de um comercial da Coca-Cola.

O sujeito pode ter passado o ano todo de mal humor, ou sendo um tremendo filha da puta. Pode ter perdido a namorada para o melhor amigo ou descoberto sua vocação secreta para ser pescador de golfinhos albinos e se mudado para a Malásia, ou algo parecido. O 'Espírito Natalino' não sabe distinguir essas peculiaridades. Ele ataca e pronto. É assim que funciona.

Existe uma melancolia subentendida no Natal. Algo de mágico que mexe com as masmorras dentro do peito de cada um. Uma força que enfraquece os rancores dos ranzinzas e deixa o coração inundado em ternura e nostalgia. Uma espécie de felicidade triste, que renova a força e conforta os pequenos flagelos do dia-a-dia. Até o pessimismo faz que não é com ele e dá uma folga. É parte da energia que envolve a data, uma neblina que paira no ar.

As famílias, desfuncionais ou não, se reúnem em torno de uma mesa repleta de comida e constrangimentos. Tantas palavras não ditas, tantas mágoas alimentadas pelo tempo, ficam a postos esperando o momento certo para causarem a indigestão. Os presentes, sejam eles fabulosos ou bijuterias de R$1,99, são distribuídos. E todos ficam alegres. Isso tudo regado àquelas velhas piadas com o pavê, comentários a respeito de como fulano cresceu e as pontuais perguntas que atormentam a vida dos solteiros: 'E as namoradas?'. Tiro e queda.

Aquele tio distante que você suspeita ser um figurante contratado só para essas ocasiões aparece com um repertório de anedotas mais antigas que andar pra frente. A criançada corre pela casa com as bocas sujas de doces com as mães descabeladas em suas colas. Aquela pessoa que você não via há tempos te arranca um sorriso com uma mensagem inesperada de celular. Os mais céticos debocham de como são tolos aqueles que vêem o Natal como mais do que uma data comercial, mas no fundo se pegam desejando que as coisas melhorem. E elas, eventualmente, vão melhorar. 

E no final da noite, quando todos já estão empanturrados e embriagados com aquele vinho de gosto duvidoso, há quem olhe para o céu com os dedos cruzados na esperança de que uma estrela realize um milagre de natalino. 

Todo Natal é a mesma coisa. E quer saber? Ainda bem. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O mundo, o fim, essas coisas...

Chegamos ao fim. Sem cerimônias, sem ressentimentos. O mundo dando seu último suspiro, assim como previram os Maias. Ou teria sido Nostradamus? Agora não sei mais. E nem importa, afinal. A aventura humana na terra finalmente fracassa de vez. Anos de evolução resultaram em uma caminhada às cegas para isso, o fim de um ciclo. 
Simples assim.

Os especialistas estão perplexos. O mundo pode acabar em uma tsunami mortal ou com o choque de um cometa viajando a anos-luz em direção ao núcleo terrestre, não se sabe. As especulações são inconclusivas.  Na tv, programas dedicam horas a discutir o fenômeno iminente. O único consenso é o de que não há salvação. Só se sabe que é o fim.

Pouco a pouco as pessoas assimilam que não há mais volta. As igrejas ficam abarrotadas de pecadores buscando um lugar no céu ou pelo menos um local com vista privilegiada para o apocalipse. As autoridades se calam. Não há o que fazer nem o que explicar.

As linhas telefônicas passam dias congestionadas. Milhões tentam se reconciliar com entes queridos, amores do passado ou velhos desafetos, distanciados pelo tempo ou por brigas estúpidas. As companhias aéreas não conseguem atender à demanda de pessoas querendo voltar para casa. Anônimos saem às ruas aos montes, trajando vestes brancas e entoando canções que falam de amor e esperança.

As guerras são suspensas em tratados de paz que nunca foram assinados. Apenas a muda e mútua compreensão de que não faz mais sentido tentar explodir a cabeça do outro, já que todos terão o mesmo destino mórbido. 
As últimas semanas são de reflexão e reinício.

No planeta dos macacos, o último pôr-do-sol de todos os tempos acena melancolicamente do horizonte. No fim do mundo, detalhes passam a ser apenas detalhes. O Homem, pela primeira vez em toda sua  História tem a certeza da morte anunciada. A jornada antecipa seu final. As cortinas se fecham, as luzes se apagam. 
O terceiro ato se encerra.

Ao ter ciência de que não há nada além, passa-se a valorizar o aqui e o agora. Cuidar do próximo e de quem se gosta supera as ânsias materiais e os desejos mundanos. A vontade de viver se renova perto do momento derradeiro. Foi preciso o mundo acabar para o Ser Humano finalmente entender que o erro reside justamente em ser humano. 

Perto do fim, o Homem reformulou a pergunta que por anos atormentou sua existência: o que importa não é para onde ir se o mundo acabar. Mas sim com quem estar.
Compreendeu, infelizmente, tarde demais.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Jardinagem


No jardim da minha casa nasceu uma flor.

Minha primeira reação foi o espanto. Nunca florescera nada ali. Apenas algumas ervas daninhas. A bem da verdade, o jardim era mais uma morada de insetos e outros bichos barulhentos durante a noite. E ali estava, pequena, indefesa, e amarela.

Cheguei perto, com receio. Minha habilidade com a jardinagem se equivale a minha habilidade em montar búfalos raivosos. Ou seja, nenhuma. Definitivamente era uma flor. Sem saber o que fazer, dei de ombros e a deixei ali. Que a natureza cuidasse daquilo que é seu, e estamos conversados.

Mas acontece que a indiferença é uma porção exagerada de abacate. No começo você consegue comer tranquilamente, mas depois de um tempo o sabor amarga na boca. Dividido entre curioso e cuidadoso, comecei a monitorar meu quintal. Eventualmente passei a regá-la. Em pouco tempo, a indefesa flor amarela ganhava minha simpatia. E foi aí que tudo desandou.

Cuidar da planta era uma coisa casual, que eu fazia depois do almoço. Nada mais que um passatempo saudável. Passar alguns minutos no jardim renovava as energias e fazia bem. Achava legal, até, zelar por algo que não me pertencia por completo. Abracei a causa e arregacei as mangas.

Fui seu protetor, em dias de sol e chuva. Desafiei ventanias e suportei dias secos. Reguei, aparei e dei amor, ou algo parecido. 
Com a minha ajuda, a flor amarela cresceu.

Reinava absoluta, rainha solitária e soberana do meu jardim. Era a primeira coisa em que eu pensava depois de acordar, e a última antes de dormir. Dividia minha alegria com amigos, que não entendiam. Apenas balançavam a cabeça, caridosamente. 'Enlouqueceu'. 

Então, sem aviso prévio, de maneira inesperada, assim como surgira, a flor desaparecera. Custei a acreditar. No chão batido, apenas o caule, partido. Algum bicho sorrateiro provavelmente arrancara a flor durante a noite, longe dos meus olhos e do meu cuidado. Meu pequeno milagre, enfim, tirado de mim. Um crime sem vestígios. Sem mais nada a fazer, aceitei conformado aquela ironia do destino. E a vida seguiu seu curso.

Com o tempo, peguei gosto pela jardinagem. Fiz crescer outras flores, de diferentes tamanhos e cores. Transformei por completo meu quintal, assim como ele um dia havia também me transformado. Mas naquele cantinho, naquele lugarzinho específico em que a pequena flor amarela florescera, nunca mais nasceu nada. Apesar de todo meu esforço e dedicação, um pequeno vão jazia tristemente em meio às flores.

Desolado, vislumbrei meu jardim. Mais uma vez, deserto.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Astronauta


Havia paz. Paz e escuridão. Escuridão e silêncio. E mais nada.

E havia o Astronauta.

Vagando pelo espaço há mais tempo que conseguia se lembrar. À deriva naquele mar negro pontilhado por estrelas aqui e ali. Ao longe, a nave-mãe flutuava tristemente. E o Astronauta solto no espaço. Impossibilitado pelas leis da física de voltar para a nave. Voltar para casa.

Perdido na imensidão bela e misteriosa, o Astronauta era um nada. Um pequeno átomo disperso no Universo. Tirado de seu curso natural. Uma pequena mancha de tinta na pintura. Orbitando aleatoriamente por um mundo desconhecido. Só.
O nível de oxigênio de seu traje diminuía progressivamente. A respiração embaçava o visor do capacete. 

O Astronauta sentia medo. Apesar de todos os anos de treinamento árduo e intenso, nada o preparara para aquilo. E o coração do Astronauta retumbava no Espaço Sideral.
E então, quando sua esperança se eclipsava, algo chamou a atenção do Astronauta.

Logo à sua frente, emoldurada em um portal, uma nebulosa de estrelas. Uma mistura de cores e luzes em contraste com o véu negro do céu de toda parte. A visão mais incrível de sua existência.

Tomado por tal emoção de uma imagem que talvez nenhum homem na Terra jamais pudesse ver, o Astronauta sentiu-se único. Aceitando a ironia do destino, o Astronauta abraçou o desconhecido e esperou pela morte. Que era bela. E o Astronauta chorou.

Acontece que o Astronauta não morreu. Uma missão espacial de resgate o encontrou pouco tempo depois, bem longe da nebulosa fantástica. Quase sem oxigênio. Mas vivo. E o Astronauta voltou pra casa.

Na Terra, virou celebridade. Dava entrevistas, tirava fotos. Só se falava no Astronauta. Era um herói de nossos tempos. Um sobrevivente. Lançaram bonecos do Astronauta. As crianças colocavam caixas de papelão na cabeça e saíam disparando raios invisíveis com a boca pelas ruas. Só se falava no Astronauta.

Mas o Astronauta não era feliz. Alguma coisa estava vazia dentro dele. Nem os flashes, nem a fama, nem o dinheiro, conseguiam fazer o Astronauta voltar do mundo da Lua. Em seu delírio, o Astronauta não era mais capaz de ver beleza à sua volta. Não depois de ter encontrado algo tão fabuloso como a nebulosa espacial. Nada o agradava, nenhuma mulher o satisfazia, os amigos não tinham mais graça. O Astronauta não suportava a ideia da existência de uma coisa tão extraordinária, capaz de superar qualquer outra jamais vista, tão longe dele. Impenetrável, intocável. Invisível. 

E o Astronauta foi infeliz pelo resto da vida.

Quando dormia, o Astronauta sonhava.

Nos sonhos, havia paz. Paz e escuridão. Escuridão e silêncio.

E havia a Nebulosa.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Horácio

De sua mesa, Dr. Osmar checava ansiosamente o vistoso relógio grudado na parede. Folheado a ouro, a peça informava que mais um minuto de um atraso de meia hora se passara. Em suas mãos o excelente currículo de Horácio Marfim, já meio amassado pela ansiedade. Em muito tempo, desde que aquela vaga em sua multinacional fora aberta, o currículo de Horácio era de longe o que mais atendia às necessidades da empresa. Por isso o atraso o incomodava. Um funcionário que no papel parecia espetacular, já começava dando uma péssima primeira impressão. De sua mesa, Dr. Osmar suspirou alto.

Alguns minutos depois, a secretária anunciou com uma voz meio aterrorizada que o senhor Horácio havia chegado. Dr. Osmar prontamente aceitou recebê-lo, um pouco curioso pelo perfil do sujeito. Ajeitou a gravata rapidamente e fez a cara mais intimidadora possível. Horácio entrou na sala vagarosamente, em uma demonstração de confiança muda de seu potencial. Dr. Osmar ficou olhando aquela figura imponente e perdeu a fala por alguns instantes. Horácio, sem se incomodar com aquilo, apertou a mão de seu futuro chefe e aguardou, se divertindo um pouco com aquela situação. E então a entrevista começou.

Vinte e poucos minutos de conversa foram suficientes para Horácio convencer Dr. Osmar de que a vaga era dele. Saiu da sala desejando uma boa tarde à secretária. Marilene esperou Horácio virar o corredor, ainda com aquele jeito vagaroso de andar, para entrar na sala de Dr. Osmar. Encontrou-o encarando a porta, com um riso bobo brincando nos lábios:
- O que eu posso dizer Marilene? Tem um grande coração, este Horácio.

Após as primeiras semanas de estranhamento, afinal os novatos são sempre os que mais sofrem nessas grandes empresas, Horácio foi aos poucos caindo nas graças dos colegas. Era inegável que seu jeito peculiar encantava pouco a pouco todos por ali. Até Marilene, que não havia ido muito com a cara do coitado acabou se rendendo. Era assim na vida de Horácio. Todos, mais cedo ou mais tarde, se rendiam.

Nas confraternizações da empresa, Horácio era sempre a grande atração. Fazia brincadeiras com tudo e com todos, inclusive consigo mesmo. Dirigia as conversas e ajudava na organização. Se via alguém solitário em algum canto, provavelmente com problemas em casa, lá ia Horácio puxá-lo para uma conversa descontraída sobre o campeonato ou a novela. Todos gostavam de Horácio.

Em sua rua, Horácio era uma sensação. As mulheres o adoravam. Os homens o veneravam. As crianças o idolatravam. Todos queriam ser como Horácio, mas sabiam que jamais seria possível. Uma alma daquelas era coisa raríssima. Não havia lugar em que Horácio passava despercebido. E quando alguém que não o conhecia caía na besteira de perguntar o que havia de tão especial em Horácio, recebia prontamente uma resposta que não explicava nada:
- Horácio tem um grande coração!

E mais cedo, ou mais tarde, todos se rendiam.

Mas nem tudo eram flores na vida de Horácio. Como qualquer outro, ele sentia falta de amar.

E não por falta de tentativas. Muitos foram os 'encontros às cegas' arranjados pelas amigas, todas doidas para encontrarem a alma gêmea para Horácio. Depois de cada jantar, cada cinema, cada chopp, a história se repetia. A amiga ligava, ansiosa para saber como fora a noite.
- Foi boa, mas não sei não...
- Como não sabe Paulinha? Ou é ou não é!
- Ele parece ser legal e tudo mais...
- Hm.
- E até que tem uma beleza meio exótica depois que se acostuma...
- Sei. E então?
- Mas não sei... acho que não daria muito certo...
- Como assim criatura?
- Esse encontro foi uma má ideia! Vamos continuar sendo apenas amigos!
- Você hein, Paulinha!

Foram muitas Paulinhas, Cláudias, Biancas, Patrícias e até uma Rosicleide até Horácio conhecer Júlia. Doce, olhos negros, decidida. No começo Júlia aceitou sair com Horácio para contrariar os pais. Mas depois acabou vendo que, afinal, Horácio tinha um grande coração. O que pesava contra a relação era que Horácio Marfim era um elefante.

E não há lugar para elefantes numa sociedade como a nossa. Se as pessoas tem dificuldades em aceitar os negros, os homossexuais e os torcedores do Flamengo, imagine o que se passa com um elefante? É uma dificuldade que todos tem com aquilo fora do comum. É consenso geral do ser humano aceitar aquilo que é corriqueiro. Mas poucos são os que conseguem se deparar com o extraordinário e ir além. 

Júlia foi além. Não se importou com o fato de o namorado ser um elefante. E foram felizes. Os pais foram contra, mas teriam que concordar que um elefante era melhor que um arruaçeiro qualquer, como existem tantos por aí. 
E pras amigas, Júlia ainda confessou que a tromba não era de todo ruim na hora do sexo.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

Samba


A multidão aplaude de pé os últimos acordes daquela música que todos gostam.
Uma euforia generalizada toma conta do ambiente. Em êxtase, as pessoas gritam. Os arrepios são quase perceptíveis em microondas de choque que vão passando em fileiras. Um momento de catarse que apenas alguns eventos específicos conseguem nos proporcionar no decorrer da vida.
Em pé, na escada, tomo os últimos goles da cerveja, já quente, que repousa em minha mão. Ao meu lado algumas garotas pedem Bis e clamam por outros grandes sucessos. Me sinto mal por não compartilhar daquele momento coletivo. A multidão grita como um só ser. E eu apenas me encontro ali, como um organismo estranho àquele corpo. Uma bactéria. Um parasita.
De repente me dou conta de toda a solidão que permeia o homem, desde os primórdios. Quantas pessoas ali não escondem segredos, não possuem masmorras enterradas tão fundo em suas almas que nem o melhor dos exploradores é capaz de descobrir. Ora essa, como é possível estarmos todos juntos, se no fundo é cada um por si. E mulheres e crianças na frente! Compartilho da ideia de que cada homem é senhor de si. Do seu destino. É tudo uma questão de se achar um rumo, um norte, um tesouro no fim do arco-íris. E navegar até ele, mesmo que os icebergs pelo caminho arranhem a lataria ou afundem parte da tripulação.
Enquanto a banda afina seus instrumentos para a próxima música, me distraio na busca por respostas. Tem que haver um propósito para sermos assim. Cada pessoa possui uma marca, uma característica peculiar, um pequeno detalhe que a diferencie de todas as outras. Não há duas pessoas iguais no mundo, nem mesmo os gêmeos! Não é incrível? Esse detalhe pode ser uma pintinha no rosto ou uma coleção do Gil na estante. É isso. Cada multidão é feita de indivíduos. E cada indivíduo é em si uma multidão. Mas existem mais respostas a serem buscadas, mais perguntas a serem feitas.
E acho que já estou um pouco bêbado.
A banda começa a tocar outra música. É um samba do Chico.

'Tem dias que a gente se sente/ como quem partiu ou morreu/ a gente estancou de repente/ ou foi o mundo então que cresceu...'

Olho para o céu, mas não há estrelas. Nem perspectivas. Até a lua faz que não é com ela e fica preguiçosa atrás de nuvens. Coloco as mãos no bolso e vou atrás de outra cerveja. Não se pode mais confiar no infinito como antigamente.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Instante

Teve uma epifania.


O relógio tiquetaqueava pendurado na sala. Na cozinha, a torneira insistia em pingar. E ele, ainda deitado na cama, com os olhos abertos de quem acorda de um sono profundo, encarava o teto como se compreendesse tudo pela primeira vez. Seu coração disparado poderia ser ritmista de alguma escola de samba. Nas veias, era capaz de sentir o fluxo sanguíneo acelerado, percorrendo braços, pernas, tronco, pulmões podres de cigarro, até alcançar a cabeça. E ali em sua cabeça, como se fosse o início da vida como um todo, o cérebro ecoava por toda eternidade aquela descoberta tão fantástica e ao mesmo tempo tão simples. Tudo conectado. Um homem feito com a barba por fazer deitado em uma cama no centro de tudo. Havia compreendido.


Sentou e colocou as mãos unidas no rosto. Quem entrasse no quarto poderia jurar que orava. No escuro da palma de suas mãos, as órbitas dos olhos explodiram em cores. Ficou zonzo. Um pequeno filme borrado passava em sua memória já danificada pelo excesso de uísque da noite anterior. E das últimas décadas. Ali, sentado sozinho acompanhado só de lembranças, conseguiu rever cada adeus, cada beijo apaixonado ou não, cada toque, cada festa, cada fornada de pão de queijo, cada palpitar dos sentidos de toda uma vida. 
Em algum lugar lá fora uma ave bateu asas. Em algum lugar do seu espírito algo se quebrou.


A simplicidade da coisa residia em sua complexidade. Ou era o contrário? Cada homem é uma ilha de si mesmo. E a dele estava povoada por mágoas naufragadas e folhas secas. Nenhum tiquetaque do relógio era igual a outro. Cada pingo da torneira era único. Todo segundo que passava o aproximava do último, o derradeiro. Era inevitável. E ali, sentado ele enfim percebeu que era a soma de todos os momentos que já vivera até ali. Abriu os olhos. Mas pela primeira vez enxergava. 


Secando uma lágrima solitária, se levantou e foi até o telefone. 


Na sala, o relógio tiquetaqueava. 


Tic-Tac, Tic-Tac, Tic-Tac...


                           




                               Instantes

"Se eu pudesse novamente viver a minha vida, 
na próxima trataria de cometer mais erros. 
Não tentaria ser tão perfeito, 
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido. 

Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. 
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, 
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, 
subiria mais montanhas, nadaria mais rios. 
Iria a mais lugares onde nunca fui, 
tomaria mais sorvetes e menos lentilha, 
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. 

Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata 
e profundamente cada minuto de sua vida; 
claro que tive momentos de alegria. 
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente 
de ter bons momentos. 

Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos; 
não percam o agora. 
Eu era um daqueles que nunca ia 
a parte alguma sem um termômetro, 
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e, 
se voltasse a viver, viajaria mais leve. 

Se eu pudesse voltar a viver, 
começaria a andar descalço no começo da primavera 
e continuaria assim até o fim do outono. 
Daria mais voltas na minha rua, 
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, 
se tivesse outra vez uma vida pela frente. 
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo" 




Autor Desconhecido

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Perseguição


Estudando teorias em uma sala de aula abafada, ela me cutuca. Tento prestar atenção em qualquer coisa que Habermas tenha falado lá nos confins da história, mas ela me tira a concentração. Sussurra em meus ouvidos, arranha o meu braço. Tento me desvencilhar, em vão. 
Ela insiste, ela persiste, ela se joga no chão.


Peço desculpas ao professor e saio dali meio envergonhado com esse papelão. Mas não adianta, ela me persegue. Ela é irritante. 
Será que não percebe?


Ando depressa pra que ela não consiga me acompanhar. Rápida como um raio ela já está ao meu lado, emparelhada, puxando minha blusa, tentando alcançar a minha mão. Orgulhoso, não deixo. Tampo os ouvidos pra ignorar os chamados e subo no primeiro ônibus que passa.


Ela senta ao meu lado, me olha suplicante. Tenta puxar assunto. Viro a cabeça pro lado e ignoro. Ela não se importa, quer minha companhia à todo custo. Embaraça meus cabelos esperando que eu reaja. 
Eu não reajo. Reagir é inútil.


Tento enganá-la na hora de descer, mas ela me conhece tão bem. Ela sabe onde moro. Ela me perturba, me incomoda, esgota minha paciência.


Corro pra casa, já quase implorando pra que ela me deixe sozinho. Mas ela não deixa. Ela me grita, faz birra, chama por atenção. Algumas pessoas acham graça no meu desespero em tentar fugir. 
Ela me tira do sério.


Em casa, ela bate na porta. Tenta entrar pela janela. O rádio, o inimigo infiltrado, tenta forçá-la pra dentro. Estou cercado. É o fim da linha. Sem opção, aceito-a a contragosto. Mas de braços abertos. 




A sua Falta não me deixa em paz.





terça-feira, 12 de junho de 2012

Pra não dizer que não falei das flores.


Quando eu tinha 5 anos, quebrei um par de costelas da minha avó. Ela, mais moleca do que eu, gostava de brincar com seu neto preferido no quintal de casa. Em uma dessas brincadeiras, com o chão molhado de sabão, eu escorreguei. Minha avó, num movimento excepcionalmente rápido para uma senhora de setenta e tantos anos, segurou minha mão e evitou com que eu quebrasse alguns dentes de leite. Porém, a força pra me manter de pé ocasionou em um tombo em que ela fraturou as costas. Nunca me esqueço daquele dia. Desesperado e vendo a dor que ela sentia, comecei a chorar. Ela segurou meu ombro, deu uma risada, um beijo em minha testa e disse: 'Deixa de frescura, meu amor!'.

As flores que comprei me encaram com um ar sereno, risonho. Quase vendo graça na complexidade da situação. Não poderia esperar mais delas, afinal são simples rosas. Eventualmente elas murcharão e perderão o sentido de sua existência. Em um gesto indiferente eu poderia simplesmente jogá-las fora e acabar de uma vez por todas com o ridículo disso tudo. Cortar, literalmente, o mal pela raiz. Mas não. Continuo a guardá-las em meu desejo mudo para que, de alguma fora, esse ato reestabeleça a ordem das coisas. No fundo é apenas uma forma de negar que tudo acabou, ou pior, que nem existiu. Penduradas em seus caules, irradiando uma beleza triste na sala, as flores só fazem rir.

O que é a vida se não uma sucessão de recomeços? O momento é de recolher os cacos e tentar colar, um a um, com cuidado, pra que não fiquem peças fora do lugar. A tarefa não é fácil e exige muita concentração; alguns param embaixo do tapete ou se infiltram em feridas mais profundas. Por falar em feridas, perdi as contas das minhas. Com certeza outras virão, e formarão cicatrizes que acabarão me acompanhando para o resto da vida. Ainda me surpreendo quando, vez ou outra, encontro uma que não fazia ideia de que estava ali, adormecida, esperando o momento certo de voltar a sangrar.

Tudo agora parece meio borrado, fora de foco. Ainda procuro algum detalhe que tenha deixado escapar, a câmera escondida disso tudo. Aí reside a grande questão da verdade: todos a buscam, mas todos relutam em aceitá-la. Eu ainda não a aceitei.

O tempo tem sido um conselheiro formidável. E o trauma tem sido um motivador do cacete. Procuro conforto na ideia de que uma hora isso passa, afinal tenho meus vinte e poucos anos e uma jornada inteira pela frente. Deixar você ir exige de mim um esforço maior do que eu consigo admitir. Ter que virar as costas e trilhar um caminho para longe do seu talvez seja a maior prova de que tudo que eu fiz foi por nós dois. Ora, não é desse amor de que falam os poetas e os filmes piegas de hollywood? Sacrificar a sua própria felicidade em prol do outro, de um bem maior?

Em felicidade não acredito. Acredito que existam momentos em que conseguimos superar os problemas e enfim, nos sentir bem. Livres de amarras, livres das contas do mês ou da posição do Palmeiras no campeonato. E esses momentos, embora passageiros, penetram na memória e ficam. Se instalam lá para sempre, ou até que o Alzheimer os separe.

Se fecho meus olhos ainda vejo seu rosto. Tenho tentado mantê-los abertos, mas vez ou outra não resisto e me entrego. Sinto suas mãos pequenas entrelaçarem os meus dedos gelados e, com um leve aperto, você parece dizer de lugar nenhum: 'Está tudo bem.' Minha habilidade de criar histórias reconstrói todo e cada capítulo, seja numa praia ensolarada, em um quarto confortável ou em um bosque frio. Frases soltas de músicas me atormentam como fantasmas. Minha cabeça já não é mais o lugar seguro que outrora fora.

O gesto de minha avó faz mais sentido agora. Ainda não entendo bem o que é o amor, mas sei que eu abriria mão de algumas costelas pra te manter de pé. Hoje foi particularmente um dia difícil. Encarar essas rosas e todo meu rancor sentados à mesa me dá arrepios. Passar noites em claro pensando em tudo que não foi ou mesmo a solidão de se encontrar em meio à uma multidão de desconhecidos me deixa zonzo. Ser solitário nunca foi um problema pra mim, mas a simples ideia de saber que existe você no mundo me atormenta e me ilumina ao mesmo tempo. Uma pena eu não ter criado um final feliz pra nós dois. Sua falta me preenche por completo, e me traz à tona de uma realidade que difere daquela do meu sonho. Talvez o mais bonito que eu já tenha sonhado. Se tudo foi engano, ilusão, o escambal, não sei dizer. Sei que daqui até o fim dos tempos seremos só eu, minha tristeza, e essas malditas flores sorridentes pelo caminho.

Dizem que o que é verdadeiro nunca se vai. Posso ter tido essa desventura sozinho, criado tudo na ponta do lápis e fantasiado demais. Mas ela foi suficiente verdadeira para mim. E isso, minha cara, é algo que nem você pode me tirar. Na minha história perfeita, ainda estamos juntos. Conversando qualquer bobagem e rindo de qualquer besteira. Nessa ilusão que eu criei, você recebeu minhas rosas.
As rosas que eu nunca mandei.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Abismo


Abriu os olhos.
Uma névoa fina embaçava sua visão e sussurrava levemente da escuridão. Estava de pé. Estático. Não sabia que lugar era aquele. Seria um sonho? Não se lembrava de ter dormido recentemente. Seu corpo parecia anestesiado, até seus sentidos estavam suprimidos, como se estivesse ausente de si mesmo, assistindo a tudo aquilo através de um véu. Teria morrido? Buscou alguma memória que explicasse aquela situação, mas percebeu que não as tinha. Desconhecia quem era e onde estava.


Ali era calmo.
Nada além de névoa e crepúsculo. Poderia ser noite, não fosse a ausência de estrelas e da lua. Olhou ao redor procurando algum sinal de vida, algum vulto, algum barulho, algum odor que lhe desse uma dica daquilo tudo. Algum propósito. Não encontrou nada. Sentia frio e desejou roupas mais quentes. Quando se deu conta de que não sabia se estava vestido ou não. Sua existência ali transcendia o físico e o temporal. Ele era apenas parte da neblina, assistindo aquilo tudo apenas pela beleza de se ser, imóvel, indolor, livre.


E esperou.
Contemplou aquele cenário por muito tempo. Ou seriam alguns segundos? Não sabia distinguir bem como eram essas definições mundanas naquele lugar. Meses e anos poderiam ter se passado naquele intervalo em que ele ficara fora de contexto, arrancado de si, em uma prisão silenciosa em lugar nenhum. Decidiu procurar respostas. Começou a andar, embora não tivesse pés. E andando por uma década, ou meia hora, naquele espaço escuro e interminável ele finalmente encontrou.


Um Abismo.
A névoa se dispersara revelando um Abismo. Negro. Gigantesco. Intimidante. Dali de cima ele não conseguia ver o final daquele buraco colossal no meio do nada. Não havia como contorná-lo de qualquer lado. O Abismo era o fim e o começo de tudo. Em êxtase, sem conseguir se mover, ficou parado olhando pra baixo. O silêncio era ensurdecedor. Ficou desconcertado, como se tivesse encarando algo indecente, proibido. Começou a sentir arrepios. Suas mãos, que não existiam, tremiam.


Quis chorar.
Sentiu as fraquezas humanas pulsando nas veias. De repente, todo o sentido de sua existência reverberava pelas paredes do Abismo infinito. Seu peito encheu-se de angústia e dor, todo o peso do mundo recaiu em suas costas e seus joelhos cederam na pedra dura e fria. Não compreendia aquela força sobrenatural agindo, puxando-o direto para o centro do nada. E no meio de todo aquele turbilhão de agonia e dúvida, ele viu.


Dois olhos brilhavam.
Olhos que ele conhecia tão bem. O Abismo o observava de volta, com aqueles olhos doces e sorridentes. A escuridão o envolveu como nunca, seu peito explodiu em mil pedaços. Não conseguia continuar encarando aquele olhar tão belo e tão triste. Sentiu lentamente suas forças abandonarem o corpo que não tinha. O Abismo lentamente o consumia por inteiro, destruía suas víceras e versos, queimava seu interior deixando apenas cinzas e pó soltos no ar. Aceitando a condição imposta, decidido a ser o senhor de seu destino, resolveu abraçar a sua sina. Assustado, em um último esforço que lhe esvaiu a mente e o coração, olhou diretamente nos Olhos do Abismo. Sua última súplica silenciosa. 






Fechou os olhos. 








E pulou.




''E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.''
Friedrich Nietzsche 

terça-feira, 5 de junho de 2012

Bobagens e afins

Oi. Tudo certo? Tudo indo bem? Senta aqui, vamos conversar. Não, não vou te tomar muito tempo, é rapidinho.  Puxa, por onde começar? São tantas coisas que eu queria te dizer que nem sei por onde... Minha mãe sempre dizia que eu tinha dificuldade pra organizar o raciocínio. Ela dizia que eu tinha um vermezinho na cabeça, que embaralhava o pensamento. Acho que ela tinha razão. Vai ver por isso sempre gostei de escrever. Desde pequeno. Um papel e caneta e pronto, ali estava um menino feliz. Acho que nessa época surgiu o sonho de ser escritor. Vê se pode, escritor! No Brasil. Até flanelinha ganha mais nesse país. Mas o que uma mãe não faz pra ver um filho feliz né? Quer ser escritor meu filho? Que coisa maravilhosa! Agora termina de comer toda a couve do prato ou vai ficar sem sobremesa! E assim durante muito tempo me alimentei de couves, sobremesas e desse sonho bobo. Engraçado como a gente tem sonhos bobos né? Quando se é criança é bom sonhar. Depois a gente cresce e vem o senso do ridículo e a necessidade de ganhar dinheiro e leva tudo da gente. Mas espera, não é disso que eu quero falar. Calma, eu já chego lá. Você tá bem bonita, fez alguma coisa no cabelo? Tá diferente. Sempre gostei de cabelo de mulher. Lembro que quando tinha uns quinze anos me apaixonei pela nuca de uma garota. Dá pra acreditar? Eu me sentava algumas cadeiras atrás dela no colégio. Aí um dia desses, como outro qualquer, ela prendeu o cabelo num coque enquanto anotava equações do quadro negro. Ficaram uns fiozinhos de cabelo caindo na nuca, sabe? Fiozinhos de cabelo na nuca, a ruína de um homem. Paixão instantânea. Nessa época meu fascínio pela escrita andava meio renegado. Mas você me conhece. Essa minha timidez crônica era ainda pior naquela época. Veja você, com medo de encarar uma nuca. E aí veio a ideia de escrever uma carta pra ela. E assim eu fiz. Coloquei no armário de livros dela, sem assinatura, claro. O plano perfeito. Puxa, como eu era brega. Mas, veja como são as coisas. Ela acabou gostando. Achou fofo, até. Sempre tive pavor dessa palavra: fofo. Parece que a pessoa não tem adjetivos pra descrever quão grande foi seu papel de ridículo e acaba te presenteando com um 'fofo'. Não há nada que um tímido tenha mais medo do que bancar o ridículo. Não é necessário dizer que eu frequentemente o fazia. Tá rindo, né? Não tem nada de engraçado nisso. Tá, talvez tenha um pouco. Claro que não deu certo com a menina dos fios na nuca. Veja só, meninas acham 'fofo' que lhe mandem cartas. Faz bem pro ego, ou coisa assim. Mas há muito eu aprendi que os 'fofos' não tem espaço na hora que o jogo é pra valer. Pelo menos recuperei meu gosto por escrever, e isso meio que foi o combustível da minha vida para os anos seguintes. Pensei até em fazer Jornalismo, por que não? Felizmente não o fiz. Acho que não teria estômago pra uma profissão dessas. De vez em quando ainda penso nisso. Sou do tipo que remói a dúvida do que poderia ter sido. Cada decisão que a gente toma na vida, por menor que seja, altera o curso das coisas. Cada ação repercute no nosso trajeto nesse mundo. Inclusive quando não agimos. Será que eu fiz certo ao não cursar Jornalismo? A menina dos fios na nuca era a mulher da minha vida e eu deixei escapar? Tomar chá de manhã foi a melhor opção? Tá me entendendo? Essa vida é muito incerta. Sempre tive dificuldades em tomar escolhas. E se eu virar à direita no lugar errado e nunca mais encontrar meu caminho de volta? Não me leve a mal, não é que eu não saiba o que eu quero. Mas a ideia de um mundo de possibilidades é, no mínimo, assustadora. Seria muito mais fácil se tudo fosse como num jogo de War. Você nasce, recebe seus objetivos pra ganhar a partida, e joga os dados. Deixando tudo nas mãos do acaso e da sua habilidade de combater exércitos inimigos. Mas que não me venham com a carta de dominar um território à sua escolha. Acho que não conseguiria decidir qual deles e aí, olha lá, os exércitos verdes tão me atacando no Sudão e lá se foi minha estratégia. Falando em escolhas preciso de ajuda pra decidir pra onde ir nessas férias. Mas isso é assunto pra outro dia. Aceita uma balinha? É de café. Incrível como ando viciado em café. Sempre detestei, até o cheiro. Depois de quatro anos e alguns meses de faculdade bem mal dormidos você acaba sem opção. Hoje, olhando pra trás, vejo como sou uma pessoa diferente da que eu era. Talvez a timidez e a aversão por couves ainda continuem firmes e fortes, mas acho que acabei criando uma nova casca pro meu casulo. Toda mudança é válida, desde que seja pra melhor. Mudanças... por quantas já devo ter passado. E quem não passa? Perdi até as contas. Ainda lembro do dia em que te conheci. E aqui estamos, nós dois, sentados nesse corredor imundo, tão diferentes quanto poderíamos imaginar. História engraçada, a nossa. Digo, quais eram as probabilidades certo? Não acredito nessas bobagens de destino, mas as vezes acho que o Universo gosta de aprontar das suas. Lembro que te achei uma chata à primeira vista. O que? Não me olha assim, aposto que você pensou o mesmo de mim. Mas você logo tratou de apagar essa impressão. Algumas semanas depois e eu não te tirava da cabeça. E olha que nem precisei ver sua nuca. Logo eu, que achava que se apaixonar era falha de caráter. Aí vem você, sabe-se lá de onde, e muda toda uma vida de convicções construídas na base de decepções e erros. Sinto falta de quando você, no meio de uma conversa séria, simplesmente deixava escapar uma careta. Uma careta! Tão espontânea e natural, quase como uma criança. Parando pra pensar, sinto falta de tanta coisa. Bobagens, principalmente. Depois, com a mesma naturalidade que você entrou em minha vida, você simplesmente saiu dela. Sem maiores dramas como nos filmes ou nas novelas. Sem nenhum ato heróico que coroasse aquilo tudo. Você simplesmente acordou uma manhã e mudou de estação de rádio. E é assim. Abrindo mão de sonhos pelo caminho mas sem perder a habilidade de sonhar. Sonhos bobos, que sejam. Ora, e quem é que vai julgar isso? Talvez se eu não tivesse desistido de tantas coisas nunca teríamos nos encontrado, quem sabe? Talvez se você não tivesse desistido de mim, o que poderia ter sido? E agora, vendo você aqui na minha frente, só consigo pensar em um bêbado montando um quebra-cabeças. Tudo se encaixa, mas nenhuma imagem é formada. Aí ele solta um palavrão e bagunça todas as peças de novo. Acha que tô exagerando? O que é isso... É que, sei lá, acaba ficando muita coisa suprimida. Lá vou eu me emocionar de novo. Acho que é esse remédio que ando tomando, nunca se sabe. Esse é o seu sinal? Ah, certo. Tudo bem, a gente se vê por aí né? Foi bom te encontrar, ver que anda tudo bem. Se cuida hein? Até.