De sua mesa, Dr. Osmar checava ansiosamente o vistoso relógio grudado na parede. Folheado a ouro, a peça informava que mais um minuto de um atraso de meia hora se passara. Em suas mãos o excelente currículo de Horácio Marfim, já meio amassado pela ansiedade. Em muito tempo, desde que aquela vaga em sua multinacional fora aberta, o currículo de Horácio era de longe o que mais atendia às necessidades da empresa. Por isso o atraso o incomodava. Um funcionário que no papel parecia espetacular, já começava dando uma péssima primeira impressão. De sua mesa, Dr. Osmar suspirou alto.
Alguns minutos depois, a secretária anunciou com uma voz meio aterrorizada que o senhor Horácio havia chegado. Dr. Osmar prontamente aceitou recebê-lo, um pouco curioso pelo perfil do sujeito. Ajeitou a gravata rapidamente e fez a cara mais intimidadora possível. Horácio entrou na sala vagarosamente, em uma demonstração de confiança muda de seu potencial. Dr. Osmar ficou olhando aquela figura imponente e perdeu a fala por alguns instantes. Horácio, sem se incomodar com aquilo, apertou a mão de seu futuro chefe e aguardou, se divertindo um pouco com aquela situação. E então a entrevista começou.
Vinte e poucos minutos de conversa foram suficientes para Horácio convencer Dr. Osmar de que a vaga era dele. Saiu da sala desejando uma boa tarde à secretária. Marilene esperou Horácio virar o corredor, ainda com aquele jeito vagaroso de andar, para entrar na sala de Dr. Osmar. Encontrou-o encarando a porta, com um riso bobo brincando nos lábios:
- O que eu posso dizer Marilene? Tem um grande coração, este Horácio.
Após as primeiras semanas de estranhamento, afinal os novatos são sempre os que mais sofrem nessas grandes empresas, Horácio foi aos poucos caindo nas graças dos colegas. Era inegável que seu jeito peculiar encantava pouco a pouco todos por ali. Até Marilene, que não havia ido muito com a cara do coitado acabou se rendendo. Era assim na vida de Horácio. Todos, mais cedo ou mais tarde, se rendiam.
Nas confraternizações da empresa, Horácio era sempre a grande atração. Fazia brincadeiras com tudo e com todos, inclusive consigo mesmo. Dirigia as conversas e ajudava na organização. Se via alguém solitário em algum canto, provavelmente com problemas em casa, lá ia Horácio puxá-lo para uma conversa descontraída sobre o campeonato ou a novela. Todos gostavam de Horácio.
Em sua rua, Horácio era uma sensação. As mulheres o adoravam. Os homens o veneravam. As crianças o idolatravam. Todos queriam ser como Horácio, mas sabiam que jamais seria possível. Uma alma daquelas era coisa raríssima. Não havia lugar em que Horácio passava despercebido. E quando alguém que não o conhecia caía na besteira de perguntar o que havia de tão especial em Horácio, recebia prontamente uma resposta que não explicava nada:
- Horácio tem um grande coração!
E mais cedo, ou mais tarde, todos se rendiam.
Mas nem tudo eram flores na vida de Horácio. Como qualquer outro, ele sentia falta de amar.
E não por falta de tentativas. Muitos foram os 'encontros às cegas' arranjados pelas amigas, todas doidas para encontrarem a alma gêmea para Horácio. Depois de cada jantar, cada cinema, cada chopp, a história se repetia. A amiga ligava, ansiosa para saber como fora a noite.
- Foi boa, mas não sei não...
- Como não sabe Paulinha? Ou é ou não é!
- Ele parece ser legal e tudo mais...
- Hm.
- E até que tem uma beleza meio exótica depois que se acostuma...
- Sei. E então?
- Mas não sei... acho que não daria muito certo...
- Como assim criatura?
- Esse encontro foi uma má ideia! Vamos continuar sendo apenas amigos!
- Você hein, Paulinha!
Foram muitas Paulinhas, Cláudias, Biancas, Patrícias e até uma Rosicleide até Horácio conhecer Júlia. Doce, olhos negros, decidida. No começo Júlia aceitou sair com Horácio para contrariar os pais. Mas depois acabou vendo que, afinal, Horácio tinha um grande coração. O que pesava contra a relação era que Horácio Marfim era um elefante.
E não há lugar para elefantes numa sociedade como a nossa. Se as pessoas tem dificuldades em aceitar os negros, os homossexuais e os torcedores do Flamengo, imagine o que se passa com um elefante? É uma dificuldade que todos tem com aquilo fora do comum. É consenso geral do ser humano aceitar aquilo que é corriqueiro. Mas poucos são os que conseguem se deparar com o extraordinário e ir além.
Júlia foi além. Não se importou com o fato de o namorado ser um elefante. E foram felizes. Os pais foram contra, mas teriam que concordar que um elefante era melhor que um arruaçeiro qualquer, como existem tantos por aí.
E pras amigas, Júlia ainda confessou que a tromba não era de todo ruim na hora do sexo.